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Protocolos
Compostos › Verificado em fonte primária

Placebo, nocebo e a "reprogramação de crença"

Em 63 ensaios com 12.564 homens, o placebo melhorou a ereção com efeito pequeno a moderado, e o remédio com efeito grande. O nocebo é real. O "protocolo de Harvard em 4 etapas" é um roteiro publicado inteiro.

Não aprovadoVerificado em fonte primária
Ilustração gerada por IA. Não é dado, nem imagem de estudo.

Material experimental. Leia antes de usar qualquer coisa daqui.

Nada nesta página é recomendação médica, prescrição ou plano de tratamento. É uma tradução organizada de protocolos que circulam em comunidades de pesquisa e, quando existe, do que ensaios publicados testaram. As duas coisas estão marcadas de forma diferente — e não são equivalentes.

A maior parte dos compostos aqui não tem aprovação da ANVISA nem da FDA para uso humano. Vários são vendidos com rótulo de "uso exclusivo em pesquisa", o que significa que não passaram por controle de pureza, esterilidade ou dosagem para consumo por pessoas. Dose descrita por comunidade não é dose validada: é o que alguém relatou ter feito.

Converse com um profissional de saúde habilitado antes de considerar qualquer um destes compostos. Se você já usa algum e sentir algo fora do previsto, procure atendimento — não espere o próximo exame de rotina.

Atenção específica deste composto: Esta página trata de expectativa e informação, não de suplemento. Placebo não trata doença grave, e acreditar não substitui remédio. Também não é verdade que todo efeito colateral seja "da cabeça": os mesmos estudos mostram efeitos reais dos remédios. Quem tem disfunção erétil deve ser avaliado, porque ela pode ser sinal de doença do coração, e tratamento psicológico tem evidência própria. Não pare remédio por causa de vídeo.

Resumo

Os vídeos dizem que 35% dos doentes "se curam" com pílula de açúcar, que a indústria esconde isso e que um protocolo de Harvard de "reprogramação de crença" teve etapas apagadas. O 35% vem de um artigo de 1955, não de 1961, e foi contestado por uma reanálise. Revisões Cochrane acharam efeito pequeno do placebo em sintomas relatados, como dor, e nenhum efeito claro em desfechos objetivos. Na disfunção erétil, o placebo melhorou a ereção com efeito pequeno a moderado em 63 ensaios; o remédio teve efeito grande. O nocebo é bem medido: avisar sobre efeito sexual subiu a queixa de 15,3% para 43,6%. O roteiro de Harvard existe, tem quatro pontos e está publicado inteiro.

Por que esta página existe

O efeito placebo aparece descrito em vídeos curtos sobre saúde masculina que vi publicados na internet, como uma cura escondida. O roteiro: em 1961, um médico americano publicou numa grande revista médica que 35% dos pacientes "melhoravam completamente" com pílula de açúcar; a indústria farmacêutica teria lido isso e cortado o financiamento de toda pesquisa na área, porque o placebo "prova que o corpo cura a si mesmo quando a mente acredita". O inverso, o nocebo, seria igualmente poderoso: quando o médico diz "você tem seis meses de vida", o corpo "executa o prazo", e haveria mortes "no prazo exato", com autópsia sem causa, publicadas numa revista de medicina de Nova Inglaterra. A bula, com "47 efeitos colaterais", faria o cérebro produzir os sintomas, e a agência americana de remédios "sabe disso desde 1987" sem mudar o formato. Por fim, pesquisadores de uma faculdade de medicina de Harvard teriam um protocolo de "reprogramação de crença" em quatro etapas, cujas duas últimas teriam sido retiradas da versão pública depois de pressão de financiadores ligados a duas grandes farmacêuticas.

Esta página não trata de algo que se toma. Ela confronta cada uma dessas frases com os artigos citados ou com os mais próximos que achei, e acrescenta o que interessa a quem chegou aqui por causa de ereção ou testosterona: quanto o placebo faz nos ensaios de remédio para disfunção erétil, quanto o nocebo pesa nas queixas sexuais, e o que se sabe sobre crença e desempenho.

Levantei as alegações de 1 vídeo curto e conferi 10 delas. Nenhum número desta página veio da fonte secundária do site.

O que é placebo, o que é nocebo, e o que não é

Placebo é um tratamento sem princípio ativo para o problema em questão, como um comprimido de amido, uma cirurgia simulada ou uma agulha que não perfura. O "efeito placebo", no sentido estrito, é a melhora causada pela expectativa e pelo contexto do tratamento. Nocebo é o oposto: piora ou sintoma causado pela expectativa de dano.

O ponto que os vídeos pulam é que nem toda melhora no grupo placebo de um ensaio é efeito placebo. A reanálise de Kienle e Kiene (1997) lista o que pode produzir uma falsa impressão de efeito placebo: melhora espontânea, flutuação dos sintomas, regressão à média (quem entra num estudo no pior momento tende a melhorar de qualquer jeito), tratamento adicional, respostas por cortesia ao pesquisador, entre outros. Só os ensaios que comparam placebo com nenhum tratamento separam o efeito placebo da evolução natural. Foi o que fizeram Hróbjartsson e Gøtzsche na revisão de 2001 e na revisão Cochrane de 2010.

Quanta evidência existe, de verdade

Os números abaixo foram levantados por mim em 16 de outubro de 2026, no PubMed e no ClinicalTrials.gov. A consulta de cada linha está ao lado do número, para qualquer pessoa repetir e me contradizer.

BaseConsultaResultado
PubMednocebo[tiab]1.541 artigos
PubMednocebo[tiab] AND (Meta-Analysis[Publication Type] OR Systematic Review[Publication Type])136 artigos
PubMed"open-label placebo"[tiab] OR "open label placebo"[tiab]288 artigos
PubMed("open-label placebo"[tiab] OR "open label placebo"[tiab]) AND Randomized Controlled Trial[Publication Type]142 artigos
PubMed("placebo response"[tiab] OR "placebo effect"[tiab] OR "placebo effects"[tiab] OR nocebo[tiab]) AND "erectile dysfunction"[tiab]31 artigos
PubMed("placebo response"[tiab] OR "placebo effect"[tiab] OR "placebo effects"[tiab] OR nocebo[tiab]) AND testosterone[tiab]30 artigos
PubMed("placebo effect"[tiab] OR "placebo effects"[tiab] OR nocebo[tiab]) AND (sport*[tiab] OR athlete*[tiab] OR "exercise performance"[tiab])151 artigos
PubMed("belief reprogramming"[tiab] OR "reprogramming beliefs"[tiab] OR "belief reprogramming"[All Fields])0 artigos
ClinicalTrials.govintervenção: "open-label placebo" OR "open label placebo"93 estudos registrados
ClinicalTrials.govtermo livre (query.term): nocebo66 estudos registrados

Leitura honesta desses números

  • A pesquisa sobre placebo e nocebo não foi interrompida. Há 1.541 artigos com a palavra "nocebo" no título ou no resumo, 142 ensaios randomizados de placebo aberto e 93 registros desse tipo de ensaio. A alegação de que o financiamento foi cortado não combina com esse volume.
  • "Reprogramação de crença" não é termo da literatura. A busca devolve zero artigos. O que existe com nome técnico é o placebo aberto ("open-label placebo"): o paciente sabe que toma placebo.
  • Na disfunção erétil, o placebo é medido em todo ensaio de remédio, mas raramente é o assunto. Por isso os 31 artigos com "efeito placebo" e "disfunção erétil" no resumo são poucos perto do total de ensaios da área, e a meta-análise que juntou os grupos placebo é a fonte mais útil.
  • Contagem de artigo mede atenção acadêmica, não evidência de desfecho. Registro não é resultado.

Os estudos que sustentam (ou não) as alegações

Segundo o PubMed, estes são os trabalhos concretos por trás do que se diz sobre placebo e nocebo.

EstudoNContextoO que relatouRessalva
Beecher, 1955
J Am Med Assoc 159(17):1602-6 · PMID 13271123
1.082 pacientes em 15 estudos, segundo a reanálise de 1997O artigo "The powerful placebo"35% "satisfatoriamente aliviados" só com placebo, segundo Kienle e KieneÉ de 1955; sem resumo no PubMed; não o li
Beecher, 1961
JAMA 176:1102-7 · PMID 13688614
—"Cirurgia como placebo: um estudo quantitativo de viés"Sem resumo no PubMedÉ o artigo de 1961 no mesmo periódico; trata de cirurgia, não de pílula de açúcar
Kienle e Kiene, 1997
J Clin Epidemiol 50(12):1311-8 · PMID 9449934
os 15 estudos de BeecherReanáliseNenhuma evidência de efeito placebo nos estudos citados por Beecher; a melhora tem outras explicações (melhora espontânea, regressão à média e outras)Reanálise de outros autores, não novo ensaio
Hróbjartsson e Gøtzsche, 2001
N Engl J Med 344(21):1594-602 · PMID 11372012
32 ensaios com desfecho binário e 82 com desfecho contínuoPlacebo contra nenhum tratamentoSem efeito em desfechos binários (RR 0,95); efeito pequeno em desfechos contínuos e subjetivos; em dor, 6,5 mm numa escala de 100 mm"Pouca evidência" de efeitos clínicos poderosos, nas palavras dos autores
Hróbjartsson e Gøtzsche, 2010 (Cochrane)
Cochrane Database Syst Rev (1):CD003974 · PMID 20091554
202 ensaios com dados, 60 condiçõesPlacebo contra nenhum tratamentoDesfechos binários RR 0,93 (IC 0,88–0,99); contínuos SMD −0,23; efeito em dor (−0,28) e náusea (−0,25); sem efeito significativo em tabagismo, demência, depressão, obesidade, hipertensão, insônia e ansiedadeRisco de viés baixo em só 8% dos ensaios
Stridh et al., 2020 (meta-análise)
JAMA Netw Open 3(3):e201423 · PMID 32196105
63 ensaios, 12.564 homensGrupos placebo dos ensaios de inibidores de PDE5 (sildenafila, tadalafila e outros)Placebo melhorou a função erétil: g = 0,35 (pequeno a moderado); remédio: g = 1,25; diferença a favor do remédio: g = 1,04. Com estresse pós-traumático, placebo g = 0,78; após cirurgia ou radioterapia da próstata, remédio e placebo sem diferença significativaMede o grupo placebo antes e depois, o que inclui evolução natural, não só expectativa
Goldstein et al., 1998
N Engl J Med 338(20):1397-404 · PMID 9580646
532 + 329 homensEnsaio de registro da sildenafilaRelações bem-sucedidas: 69% com sildenafila contra 22% com placebo; 5,9 contra 1,5 por mêsPatrocínio do fabricante não está no resumo; efeitos adversos reais (dor de cabeça, rubor, má digestão) em 6% a 18%
Mondaini et al., 2007
J Sex Med 4(6):1708-12 · PMID 17655657
120 homens com hiperplasia da próstata (107 concluíram)Finasterida apresentada como "composto X"; metade foi avisada sobre efeitos sexuaisUm ou mais efeitos sexuais: 43,6% nos avisados contra 15,3%; disfunção erétil 30,9% contra 9,6%Mesmo remédio nos dois grupos: a diferença veio do aviso
Silvestri et al., 2003
Eur Heart J 24(21):1928-32 · PMID 14585251
96 homens com doença cardiovascularAtenolol com três níveis de informaçãoDisfunção erétil em 3,1% (sem saber o remédio), 15,6% (sabendo o remédio) e 31,2% (avisados do efeito sexual); depois, placebo e sildenafila reverteram igualmente a queixa em todos menos umPequeno; aberto em parte
Myers et al., 1987
Clin Pharmacol Ther 42(3):250-3 · PMID 3621780
ensaio multicêntrico de aspirina ou sulfimpirazonaTermo de consentimento com ou sem aviso de efeito no estômagoSeis vezes mais saídas do estudo por sintomas leves de estômago nos centros que avisavam; complicações graves (úlcera, sangramento) iguais nos três centrosÉ de 1987, mas é um estudo acadêmico canadense, não da agência americana
Howard et al., 2021 (SAMSON)
J Am Coll Cardiol 78(12):1210-1222 · PMID 34531021
60 randomizados, 49 concluíramPessoas que tinham abandonado a estatina; meses de estatina, placebo e frasco vazioSintomas: 8,0 sem comprimido, 16,3 com estatina, 15,4 com placebo; razão de nocebo 0,90; 50% voltaram à estatinaO mesmo grupo publicou carta no New England Journal of Medicine em 2020 (PMID 33196154)
Haas et al., 2022 (meta-análise)
JAMA Netw Open 5(1):e2143955 · PMID 35040967
22.578 que receberam placebo, em 12 artigosGrupos placebo dos ensaios de vacina de covidApós a 1ª dose, 35,2% dos que tomaram placebo relataram efeito sistêmico, sobretudo dor de cabeça e cansaço; o nocebo respondeu por 76,0% dos efeitos sistêmicos da 1ª doseQuem tomou a vacina relatou mais efeitos que quem tomou placebo
Meador, 1992
South Med J 85(3):244-7 · PMID 1546347
2 casosRelato de casos: "morte por feitiço"Um homem com diagnóstico de câncer metastático morreu acreditando que tinha câncer espalhado; na autópsia, só um nódulo de 2 cm no fígadoÉ relato de caso, numa revista do sul dos Estados Unidos, não no New England Journal of Medicine; não fala em "prazo exato"
Kaptchuk et al., 2010
PLoS One 5(12):e15591 · PMID 21203519
80 pacientes com intestino irritável (70% mulheres)Placebo aberto, 2 cápsulas 2 vezes ao dia, contra nenhum tratamento, 3 semanasMelhora global 5,0 contra 3,9 no 21º dia (p = 0,002); menos gravidade dos sintomasDesfecho relatado pelo paciente; financiado pelo NIH americano e por uma fundação; um autor declara consultoria a outras empresas, sem relação com o estudo
Carvalho et al., 2016
Pain 157(12):2766-2772 · PMID 27755279
97 randomizados, 83 concluíramDor lombar crônica; placebo aberto somado ao tratamento habitual, 3 semanasDor −1,5 ponto (escala de 0 a 10) com placebo aberto contra −0,2; incapacidade −2,9 contra 0,0Desfecho relatado pelo paciente; sem cegamento possível
Melnik et al., 2007 (Cochrane)
Cochrane Database Syst Rev (3):CD004825 · PMID 17636774
398 homens em 11 ensaiosIntervenções psicossociais para disfunção erétilPsicoterapia em grupo contra lista de espera: RR 0,40 (IC 0,17–0,98) para "persistência da disfunção" (N = 100); terapia sexual em grupo: RR 0,13 (N = 37)Ensaios antigos e pequenos
Eisenegger et al., 2010
Nature 463(7279):356-9 · PMID 19997098
mulheres saudáveisDose única de testosterona sublingual ou placebo, jogo de negociaçãoA testosterona aumentou ofertas justas; quem acreditava ter recebido testosterona, tendo ou não recebido, fez ofertas mais injustasMulheres, não homens; comportamento em laboratório
Hurst et al., 2020 (revisão sistemática)
Eur J Sport Sci 20(3):279-292 · PMID 31414966
32 estudos, 1.513 participantesPlacebo e nocebo em desempenho esportivoEfeito pequeno a moderado: placebo d = 0,36; nocebo d = 0,37Estudos pequenos, desfechos de laboratório

O que foi testado em gente

Isto não é recomendação: é o registro do que foi feito em estudos publicados, em quem e por quanto tempo. Nenhum deles se chama "reprogramação de crença".

EstudoO que se fezDuraçãoEm quemO que o estudo queria medir
Kaptchuk et al., 2010Cápsulas de placebo declaradas como placebo, 2 cápsulas 2 vezes ao dia, com um roteiro de "quatro pontos de conversa"3 semanas80 pacientes com intestino irritávelMelhora global e gravidade dos sintomas
Carvalho et al., 2016O mesmo roteiro de quatro pontos, adaptado, e 2 cápsulas 2 vezes ao dia3 semanas97 adultos com dor lombar crônicaDor e incapacidade
Mondaini et al., 2007Uma frase sobre efeitos sexuais dita ou não dita junto com o mesmo remédio1 ano120 homens com hiperplasia da próstataEfeitos sexuais relatados
Silvestri et al., 2003Três níveis de informação sobre o mesmo remédio3 meses96 homens com doença cardiovascularDisfunção erétil relatada
Melnik et al., 2007Psicoterapia e terapia sexual em grupoVariada398 homens com disfunção erétilPersistência da disfunção

O "protocolo de Harvard em quatro etapas" existe, e está publicado inteiro

O mais próximo da descrição dos vídeos é o ensaio de placebo aberto de 2010 de Kaptchuk e colegas, de centros ligados à Harvard Medical School, em Boston. Antes de entregar o frasco rotulado "pílulas de placebo", os pesquisadores davam, em cerca de 15 minutos, uma explicação com "quatro pontos de conversa": o efeito placebo pode ser forte; o corpo pode responder automaticamente ao ato de tomar o comprimido, como os cães de Pavlov respondiam à campainha; atitude positiva ajuda, mas não é necessária; e tomar as pílulas com fidelidade é essencial. O ensaio de dor lombar de 2016 adotou o mesmo roteiro.

Três diferenças em relação ao vídeo. Primeiro, os quatro pontos estão no artigo, publicado em revista de acesso aberto, e nenhum foi "removido": dá para lê-los hoje. Segundo, o estudo foi financiado pelo centro de medicina complementar dos Institutos Nacionais de Saúde americanos e por uma fundação privada; nenhuma das duas farmacêuticas citadas no vídeo aparece no financiamento, e o único autor com consultoria para empresas a declara como sem relação com o estudo. Terceiro, o resultado foi melhora de sintoma relatado pelo paciente, em três semanas, e não a reversão de doenças que o remédio não tratou.

Na disfunção erétil, o placebo funciona um pouco, e o remédio funciona mais

A meta-análise de Stridh e colegas (2020) juntou os grupos placebo de 63 ensaios de inibidores de PDE5, com 12.564 homens. No grupo placebo, a função erétil melhorou com efeito pequeno a moderado (g = 0,35). No grupo do remédio, a melhora foi grande (g = 1,25), e a diferença entre os dois favoreceu o remédio (g = 1,04). No ensaio de registro da sildenafila, 22% das tentativas de relação deram certo com placebo, contra 69% com o remédio (Goldstein 1998).

Dois subgrupos chamam atenção. Em homens com disfunção ligada a estresse pós-traumático, o efeito do placebo foi maior (g = 0,78). Em homens operados ou irradiados na próstata, remédio e placebo não diferiram de forma significativa. A leitura honesta é dupla: a expectativa pesa na ereção, e por isso o grupo placebo melhora; mas o remédio tem efeito próprio, bem maior, na média dos homens com disfunção.

A outra metade da história é o nocebo sexual. Avisar sobre efeitos sexuais da finasterida fez a queixa de um ou mais efeitos sexuais subir de 15,3% para 43,6%, com o mesmo remédio (Mondaini 2007). Com o atenolol, a disfunção erétil relatada foi de 3,1% em quem não sabia que remédio tomava a 31,2% em quem foi avisado do efeito, e o placebo reverteu a queixa tão bem quanto a sildenafila em quase todos (Silvestri 2003). Esses estudos não dizem que o efeito colateral não existe; dizem que o aviso aumenta a queixa.

Para quem procura tratar "pela cabeça", o que existe com evidência não é "reprogramação de crença", mas psicoterapia e terapia sexual. Na revisão Cochrane, a psicoterapia em grupo reduziu a persistência da disfunção em relação à lista de espera (RR 0,40), e a terapia sexual em grupo também (RR 0,13), em ensaios antigos e pequenos (Melnik 2007).

Testosterona e desempenho: a crença pesa, mas no comportamento

Não localizei ensaio que medisse se acreditar subir a testosterona faz a testosterona subir. O que existe é diferente. Num experimento com mulheres, quem acreditava ter recebido testosterona passou a negociar de forma mais injusta, tivesse ou não recebido o hormônio; a testosterona de verdade fez o contrário, aumentando as ofertas justas (Eisenegger 2010). A expectativa mudou o comportamento, não o hormônio. No esporte, uma revisão de 32 estudos achou efeito pequeno a moderado tanto do placebo quanto do nocebo sobre o desempenho (Hurst 2020). É um efeito real e pequeno, medido em laboratório, e não substitui treino nem tratamento.

Das 10 alegações conferidas, 1 se confirma: a do nocebo

Cada linha é uma alegação como ela circula, sem o nome de quem a fez. O veredito usa os rótulos confirmado, parcialmente, não sustentado, sem estudo em humanos, estudo em animal ou in vitro e número não encontrado na fonte citada; na última linha, uso NÃO VERIFIQUEI, porque não conferi o número.

O que se dizO que os estudos mostramVeredito
Em 1961, um médico publicou num grande periódico americano que 35% dos pacientes "melhoravam completamente" com pílula de açúcarO 35% é de 1955 ("satisfatoriamente aliviados", em 15 estudos com 1.082 pacientes, segundo Kienle e Kiene 1997); o artigo de 1961 do mesmo autor é sobre cirurgia; a reanálise de 1997 não achou efeito placebo nos estudos de BeecherParcialmente
A indústria leu o estudo e cortou o financiamento de toda pesquisa na áreaHá 1.541 artigos sobre nocebo e 142 ensaios randomizados de placebo aberto; o ensaio de Harvard foi financiado pelo NIH americano (Kaptchuk 2010)Não sustentado
O placebo "prova que o corpo cura a si mesmo quando a mente acredita"Comparado com nenhum tratamento, o placebo não teve efeito em desfechos binários e teve efeito pequeno em sintomas relatados, como dor e náusea (Hróbjartsson 2001; 2010)Não sustentado
O nocebo é "o inverso documentado"Avisar sobre efeitos aumentou as queixas: seis vezes mais saídas por sintomas de estômago (Myers 1987), 43,6% contra 15,3% de efeitos sexuais (Mondaini 2007); com estatina e com placebo, os sintomas foram parecidos, com razão de nocebo de 0,90 (Howard 2021)Confirmado
Quando o médico dá seis meses de vida, o corpo "executa o prazo"; houve mortes no prazo exato, sem causa na autópsia, publicadas no New England Journal of MedicineO caso que mais se parece é um relato de 1992 numa revista do sul dos Estados Unidos: um homem morreu acreditando ter câncer espalhado, e a autópsia achou um nódulo de 2 cm (Meador 1992); não há "prazo exato" no resumo; o New England publicou em 2020 uma revisão sobre placebo e nocebo, que não liNão sustentado
A bula lista 47 efeitos e, ao lê-la, o cérebro ativa os sintomas "mesmo sem a droga fazer nada"A informação sobre efeitos aumenta a queixa (Myers 1987; Mondaini 2007; Silvestri 2003), mas os remédios também têm efeitos reais: as complicações graves foram iguais com e sem aviso (Myers 1987), e a sildenafila deu dor de cabeça e rubor (Goldstein 1998)Parcialmente
A agência americana de remédios "sabe disso desde 1987" e nunca mudou o formato das bulasO estudo de 1987 é acadêmico, não da agência (Myers 1987); a agência mudou o formato da bula profissional em 2006, com a seção de destaques e o índice (Federal Register de 24 de janeiro de 2006)Não sustentado
Existe um protocolo de Harvard de "reprogramação de crença" em quatro etapas que reverte condições que remédio não tratouExiste um roteiro de "quatro pontos de conversa" num ensaio de placebo aberto ligado a Harvard, com melhora de sintoma relatado em intestino irritável em 3 semanas (Kaptchuk 2010); o termo "reprogramação de crença" não aparece na literaturaParcialmente
As duas últimas etapas foram retiradas da versão pública depois que financiadores ligados a duas farmacêuticas pressionaramOs quatro pontos estão publicados inteiros, em revista de acesso aberto; o financiamento declarado é do NIH e de uma fundação (Kaptchuk 2010)Não sustentado
A indústria lucra US$ 1,4 trilhão por ano vendendo remédioNão conferi o número; faturamento, se for esse, não é lucro, e o valor não diz nada sobre o que o placebo fazNÃO VERIFIQUEI

Placar: 1 confirmada, 3 parcialmente, 5 não sustentadas e 1 não verificada.

Segurança, e quem não deve tirar conclusão errada disto

  • Quem tem disfunção erétil. O placebo melhora um pouco; o remédio, bem mais (Stridh 2020). Em homens com menos de 60 anos e em quem tem diabetes ou pressão alta, a disfunção pode ser sinal de alerta de doença do coração, segundo a revisão de Meldrum e colegas (2011), e merece avaliação (ver também a página tadalafila-diaria). Terapia psicológica tem evidência própria (Melnik 2007).
  • Quem tem efeito colateral de remédio. O nocebo explica parte das queixas, não todas. No estudo da estatina, metade voltou a usar o remédio depois de ver os próprios dados (Howard 2021); isso foi feito com acompanhamento, num ensaio. Parar ou retomar remédio é conversa com o médico.
  • Quem tem doença grave. Os autores da revisão de 2001 escrevem que, fora de ensaios clínicos, não há justificativa para usar placebo (Hróbjartsson 2001). Nenhum estudo localizado mostra placebo revertendo doença que o remédio não tratou.
  • Quem lê bula. A bula serve para reconhecer efeitos reais e graves. O que os estudos sugerem é cuidado na forma de informar, não deixar de informar.

Status regulatório

  • Placebo e "reprogramação de crença": não se aplica. Não há produto nem técnica registrada com esse nome.
  • Brasil, bula: a RDC 47/2009 da ANVISA, vigente com alterações, define as regras de bula; a bula para o paciente tem o item "QUAIS OS MALES QUE ESTE MEDICAMENTO PODE ME CAUSAR?" e a frequência das reações adversas é padronizada como muito comum, comum, incomum, rara e muito rara.
  • Estados Unidos, bula: a regra da agência americana publicada em 24 de janeiro de 2006 mudou o formato da bula de remédios de prescrição, com uma seção de destaques e um índice, entre outras mudanças.
  • WADA: não se aplica.

O que este levantamento não fez

  • Li resumos, não os artigos inteiros, salvo os textos completos abertos dos ensaios de placebo aberto de 2010 e 2016 e da meta-análise de 2020 sobre disfunção erétil.
  • Não li os artigos de Beecher de 1955 e 1961, que não têm resumo no PubMed; o 35% e os 1.082 pacientes vêm da reanálise de 1997.
  • Não li a revisão de 2020 do New England Journal of Medicine sobre placebo e nocebo nem a carta de 2020 do estudo da estatina; usei o artigo completo do mesmo estudo, de 2021.
  • Não verifiquei o faturamento ou o lucro da indústria farmacêutica.
  • Não localizei ensaio que medisse se a crença muda a testosterona no sangue de homens.
  • Não avaliei hipnose, meditação ou "visualização", que às vezes aparecem associadas a "crença".

Referências

Esta página não veio da fonte secundária. Cada número desta página foi levantado por mim em 7 de outubro de 2026 no PubMed, no ClinicalTrials.gov, no texto da RDC 47/2009 da ANVISA e no Federal Register americano de 24 de janeiro de 2006, e a consulta usada está declarada acima. Li resumos, não os artigos inteiros, salvo onde indicado. As contagens das tabelas com consulta, no PubMed e no ClinicalTrials.gov, foram refeitas por mim em 16 de outubro de 2026.
  1. Beecher HK. The powerful placebo. J Am Med Assoc. 1955;159(17):1602-6. PMID 13271123 — a origem do 35%, em 1955.
  2. Beecher HK. Surgery as placebo. A quantitative study of bias. JAMA. 1961;176:1102-7. PMID 13688614 — o artigo de 1961, sobre cirurgia.
  3. Kienle GS, Kiene H. The powerful placebo effect: fact or fiction? J Clin Epidemiol. 1997;50(12):1311-8. PMID 9449934 — a reanálise que não achou efeito placebo nos estudos de Beecher.
  4. Hróbjartsson A, Gøtzsche PC. Is the placebo powerless? An analysis of clinical trials comparing placebo with no treatment. N Engl J Med. 2001;344(21):1594-602. PMID 11372012 — placebo contra nada: efeito pequeno e subjetivo.
  5. Hróbjartsson A, Gøtzsche PC. Placebo interventions for all clinical conditions. Cochrane Database Syst Rev. 2010;2010(1):CD003974. PMID 20091554 — 202 ensaios, efeito em dor e náusea.
  6. Stridh A, Pontén M, Arver S, et al. Placebo Responses Among Men With Erectile Dysfunction Enrolled in Phosphodiesterase 5 Inhibitor Trials: A Systematic Review and Meta-analysis. JAMA Netw Open. 2020;3(3):e201423. PMID 32196105 — o placebo nos ensaios de remédio para ereção.
  7. Goldstein I, Lue TF, Padma-Nathan H, et al. Oral sildenafil in the treatment of erectile dysfunction. Sildenafil Study Group. N Engl J Med. 1998;338(20):1397-404. PMID 9580646 — 69% contra 22% de relações bem-sucedidas.
  8. Mondaini N, Gontero P, Giubilei G, et al. Finasteride 5 mg and sexual side effects: how many of these are related to a nocebo phenomenon? J Sex Med. 2007;4(6):1708-12. PMID 17655657 — com o aviso, a queixa sexual foi de 15,3% para 43,6%.
  9. Silvestri A, Galetta P, Cerquetani E, et al. Report of erectile dysfunction after therapy with beta-blockers is related to patient knowledge of side effects and is reversed by placebo. Eur Heart J. 2003;24(21):1928-32. PMID 14585251 — disfunção relatada de 3,1% a 31,2% conforme a informação.
  10. Myers MG, Cairns JA, Singer J. The consent form as a possible cause of side effects. Clin Pharmacol Ther. 1987;42(3):250-3. PMID 3621780 — o estudo de 1987 sobre o termo de consentimento.
  11. Howard JP, Wood FA, Finegold JA, et al. Side Effect Patterns in a Crossover Trial of Statin, Placebo, and No Treatment. J Am Coll Cardiol. 2021;78(12):1210-1222. PMID 34531021 — razão de nocebo de 0,90 com estatina.
  12. Wood FA, Howard JP, Finegold JA, et al. N-of-1 Trial of a Statin, Placebo, or No Treatment to Assess Side Effects. N Engl J Med. 2020;383(22):2182-2184. PMID 33196154 — a carta do mesmo estudo no New England, não lida.
  13. Haas JW, Bender FL, Ballou S, et al. Frequency of Adverse Events in the Placebo Arms of COVID-19 Vaccine Trials: A Systematic Review and Meta-analysis. JAMA Netw Open. 2022;5(1):e2143955. PMID 35040967 — 35,2% com efeito sistêmico após placebo.
  14. Meador CK. Hex death: voodoo magic or persuasion? South Med J. 1992;85(3):244-7. PMID 1546347 — o relato da autópsia com nódulo de 2 cm.
  15. Colloca L, Barsky AJ. Placebo and Nocebo Effects. N Engl J Med. 2020;382(6):554-561. PMID 32023375 — a revisão do New England sobre o tema, não lida.
  16. Kaptchuk TJ, Friedlander E, Kelley JM, et al. Placebos without deception: a randomized controlled trial in irritable bowel syndrome. PLoS One. 2010;5(12):e15591. PMID 21203519 — os "quatro pontos de conversa", publicados inteiros.
  17. Carvalho C, Caetano JM, Cunha L, et al. Open-label placebo treatment in chronic low back pain: a randomized controlled trial. Pain. 2016;157(12):2766-2772. PMID 27755279 — o mesmo roteiro em dor lombar.
  18. Melnik T, Soares BG, Nasselo AG. Psychosocial interventions for erectile dysfunction. Cochrane Database Syst Rev. 2007;2007(3):CD004825. PMID 17636774 — psicoterapia e terapia sexual em grupo.
  19. Eisenegger C, Naef M, Snozzi R, et al. Prejudice and truth about the effect of testosterone on human bargaining behaviour. Nature. 2010;463(7279):356-9. PMID 19997098 — a crença na testosterona mudou o comportamento.
  20. Hurst P, Schipof-Godart L, Szabo A, et al. The Placebo and Nocebo effect on sports performance: A systematic review. Eur J Sport Sci. 2020;20(3):279-292. PMID 31414966 — efeito pequeno a moderado no esporte.
  21. Meldrum DR, Gambone JC, Morris MA, et al. The link between erectile and cardiovascular health: the canary in the coal mine. Am J Cardiol. 2011;108(4):599-606. PMID 21624550 — disfunção erétil como sinal de alerta cardiovascular abaixo dos 60 anos.
  22. Resolução RDC nº 47, de 8 de setembro de 2009, da ANVISA, no AnvisaLegis — regras de bula; item "QUAIS OS MALES QUE ESTE MEDICAMENTO PODE ME CAUSAR?"; frequência padronizada das reações adversas.
  23. Food and Drug Administration. Requirements on Content and Format of Labeling for Human Prescription Drug and Biological Products; Final Rule. Federal Register. 2006;71(15):3922-3997 (não indexado no PubMed) — a mudança de formato da bula americana em 2006.
  24. E-utilities do PubMed (esearch) — a base de todas as contagens de artigo desta página.
  25. API pública do ClinicalTrials.gov, versão 2 — a base de todas as contagens de estudo desta página.

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