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Protocolos
Compostos › Verificado em fonte primária

Cordyceps (Ophiocordyceps sinensis e Cordyceps militaris)

Nenhum ensaio humano testou o cordyceps em ereção ou testosterona; no treino, a meta-análise de 2025 achou ganho aeróbio pequeno, com p = 0,05 na resistência.

Não aprovadoVerificado em fonte primária
Ilustração gerada por IA. Não é dado, nem imagem de estudo.

Material experimental. Leia antes de usar qualquer coisa daqui.

Nada nesta página é recomendação médica, prescrição ou plano de tratamento. É uma tradução organizada de protocolos que circulam em comunidades de pesquisa e, quando existe, do que ensaios publicados testaram. As duas coisas estão marcadas de forma diferente — e não são equivalentes.

A maior parte dos compostos aqui não tem aprovação da ANVISA nem da FDA para uso humano. Vários são vendidos com rótulo de "uso exclusivo em pesquisa", o que significa que não passaram por controle de pureza, esterilidade ou dosagem para consumo por pessoas. Dose descrita por comunidade não é dose validada: é o que alguém relatou ter feito.

Converse com um profissional de saúde habilitado antes de considerar qualquer um destes compostos. Se você já usa algum e sentir algo fora do previsto, procure atendimento — não espere o próximo exame de rotina.

Atenção específica deste composto: O cordyceps não consta da lista de constituintes autorizados para suplemento alimentar no Brasil (IN 28/2018, consolidada até setembro de 2026). O fungo selvagem acumula arsênio: em 2016 a autoridade chinesa encerrou um programa piloto de alimentos com cordyceps depois de encontrar 4,4–9,9 mg/kg, contra limite de 1,0 mg/kg. Uma revisão associa o C. sinensis, de forma fraca, a sangramento cirúrgico. Em camundongos, o fungo subiu a testosterona e acelerou tumor de próstata; homem com câncer de próstata ou PSA alterado não deveria usá-lo sem o urologista saber.

Resumo

"Cordyceps" nomeia dois fungos diferentes: o Ophiocordyceps sinensis selvagem do planalto tibetano, que custa dezenas de milhares de dólares o quilo, e o Cordyceps militaris cultivado, que está na maior parte dos estudos recentes e dos suplementos. Para ereção, o PubMed não tem nenhum ensaio randomizado; o que existe é rato e estudo chinês antigo fora do PubMed. Para testosterona, só células e camundongos, e num deles o fungo fez crescer câncer de próstata. No treino, uma meta-análise de 2025 achou melhora pequena no limiar ventilatório e no VO2 pico, com p = 0,05 na resistência; ensaios bem feitos em ciclistas não acharam nada.

Por que esta página existe

O cordyceps aparece descrito em vídeos curtos sobre saúde masculina que vi publicados na internet, de dois jeitos. No primeiro, é o "Viagra dos Himalaias": um fungo que abriria as artérias do pênis "sem alterar os batimentos", porque faria o corpo produzir mais óxido nítrico na fonte, ao contrário da sildenafila; um médico tibetano do século XV teria registrado o efeito na circulação, e "a ciência moderna nunca testou". No segundo, é o "fungo zumbi" que tornaria o pré-treino comum "suco de caixinha": multiplicaria o ATP, travaria o ácido lático, dobraria a carga, aceleraria a recuperação, estimularia as células do testículo a fabricar testosterona e jogaria o cortisol "no chão".

Levantei as alegações de 2 vídeos curtos, separei as 20 verificáveis e fui atrás de cada fonte citada e de cada estudo que poderia sustentá-las. Li os resumos e, quando havia acesso aberto, trechos do texto integral. Nenhum número desta página veio da fonte secundária do site, que já tem uma linha sobre cordyceps na página de nootrópicos (proprio_nootropicos).

Este site trata de assunto vizinho também em Nootrópicos.

Dois fungos com o mesmo nome

Quem compra "cordyceps" quase nunca compra o fungo do vídeo.

  • O fungo do Tibete. Segundo a revisão sistemática de Lo e colegas (2013), o Ophiocordyceps sinensis (antes Cordyceps sinensis) é chamado em tibetano de yartsa gunbu e em chinês de dong chong xia cao, "verme de inverno, erva de verão". É um fungo que parasita larvas de mariposa no solo: Wu e colegas (2015) descrevem larvas de Thitarodes pui, hospedeiras do fungo, a 4.100–4.650 m de altitude. A mesma revisão registra o preço: cerca de US$ 20.000 a 40.000 por quilo, o "ouro mole" da China.
  • O fungo cultivado. O Cordyceps militaris é outra espécie, cultivada em laboratório em arroz ou grãos. Segundo a meta-análise de Shu e colegas (2025), ele tem constituintes parecidos e é a alternativa barata ao O. sinensis natural. A revisão de Jędrejko e colegas (2026) achou 5 ensaios com C. militaris em pessoas saudáveis.
  • O micélio fermentado. Muitos produtos chamados de C. sinensis são micélio cultivado em tanque, não o corpo do fungo sobre a larva. A revisão de Zhu e colegas (1998), de autores ligados a esse tipo de produto, já tratava dos "produtos de micélio cultivados e fermentados" em uso. O preparado Cs-4, usado em dois dos ensaios abaixo, é desse tipo; um registro de fase 2/3 na Coreia descreve o seu "extrato de cultura de micélio" como Paecilomyces hepiali.
  • O "fungo zumbi". Os fungos que manipulam formigas, descritos por de Bekker e Das (2022), são outras espécies de Ophiocordyceps. Não são o que vai na cápsula. Não conferi qual fungo inspirou a ficção citada no vídeo.

A tabela de estudos abaixo diz qual fungo cada ensaio usou. Resultado com um não se transfere automaticamente para o outro.

O mecanismo que os vídeos descrevem é de rato, e a comparação com a sildenafila está errada

  • A sildenafila não "bloqueia a enzima que destrói o óxido nítrico". Segundo a bula americana, o óxido nítrico liberado no estímulo sexual ativa uma enzima que produz GMPc, a molécula que relaxa o músculo do corpo cavernoso. A sildenafila inibe a fosfodiesterase tipo 5, que degrada o GMPc, e "não tem efeito" sem estímulo sexual. O óxido nítrico em si não é o alvo. O mesmo vale para a tadalafila (ver a página tadalafila-diaria).
  • A óxido nítrico sintase no pênis foi medida em ratos. Pohsa e colegas (2020) deram C. militaris cultivado a ratos diabéticos por 3 semanas e viram a enzima produtora de óxido nítrico no pênis, a pressão dentro do corpo cavernoso, a testosterona e os espermatozoides subirem. A busca por cordyceps e óxido nítrico sintase devolve 47 artigos; não localizei nenhum que meça fluxo peniano em homens.
  • As células de Leydig são de camundongo. O C. sinensis estimulou a produção de testosterona em células de Leydig de camundongo (Huang 2001) e a cordicepina, um dos seus compostos, em células tumorais de Leydig de camundongo (Pao 2012). Em 2026, um estudo em camundongos com lesão por quimioterapia mostrou o mesmo; um dos autores é de uma empresa de cordyceps.
  • Em pessoas, a testosterona não mudou. No único ensaio que achei medindo hormônios com cordyceps em homens, Kreipke e colegas (2021) deram por 14 semanas uma mistura com rhodiola e C. sinensis a 21 homens em treino: nenhuma mudança hormonal diferente do placebo.

Quanta evidência existe, de verdade

Os números abaixo foram levantados por mim em 16 de outubro de 2026, no PubMed e no ClinicalTrials.gov. A consulta de cada linha está ao lado do número, para qualquer pessoa repetir e me contradizer.

BaseConsultaResultado
PubMedcordyceps OR ophiocordyceps3.326 artigos
PubMed"cordyceps sinensis" OR "ophiocordyceps sinensis"1.114 artigos
PubMed"cordyceps militaris"1.074 artigos
PubMed(cordyceps OR ophiocordyceps) AND (humans[MeSH Terms])666 artigos
PubMed(cordyceps OR ophiocordyceps) AND (Randomized Controlled Trial[Publication Type] OR Meta-Analysis[Publication Type])45 artigos
PubMed(cordyceps OR ophiocordyceps) AND (exercise OR performance OR VO2 OR endurance) AND (Randomized Controlled Trial[Publication Type] OR Meta-Analysis[Publication Type])14 artigos
PubMed(cordyceps OR ophiocordyceps) AND (erectile OR libido OR sexual OR impotence) AND (Randomized Controlled Trial[Publication Type] OR Meta-Analysis[Publication Type])1 artigo
PubMed(cordyceps OR ophiocordyceps) AND (testosterone) AND (humans[MeSH Terms])4 artigos
PubMed(cordyceps OR ophiocordyceps OR cordycepin) AND (eNOS OR "nitric oxide synthase")47 artigos
PubMed(cordyceps OR ophiocordyceps) AND (cortisol)5 artigos
PubMed(cordyceps OR ophiocordyceps) AND (arsenic)21 artigos
ClinicalTrials.govintervenção: cordyceps35 estudos registrados
ClinicalTrials.govintervenção: (cordyceps) AND AREA[Phase]PHASE35 ensaios de fase 3
ClinicalTrials.govintervenção: cordyceps AND AREA[Condition]erectile dysfunction0 estudos registrados
ClinicalTrials.govintervenção: cordycepin7 estudos registrados

Leitura honesta desses números

  • "A ciência nunca testou" não se sustenta. São 45 artigos marcados como ensaio randomizado ou meta-análise e 35 registros de estudo. O problema não é ausência de teste; é que quase tudo é de rim, pulmão, imunidade e câncer, na medicina chinesa.
  • Ereção: zero. O único artigo da busca de função sexual marcado como ensaio randomizado é um estudo de sertralina em ejaculação precoce, que não testa cordyceps. Nenhum registro no ClinicalTrials.gov tem cordyceps em disfunção erétil.
  • Testosterona em humanos: zero. Os 4 artigos com a marcação de humanos são de células e camundongos, um deles sobre câncer de próstata.
  • Treino: 14 artigos, metade sobre outra coisa. Na busca de exercício, entram também revisões Cochrane de doença renal, câncer de pulmão e DPOC. Os ensaios de desempenho de verdade são pequenos (8 a 28 pessoas), e vários usam misturas com rhodiola.
  • Registro não é resultado. Os 5 registros de fase 3 são de imunidade, nefropatia diabética, câncer de pâncreas e DPOC. Nenhum é de desempenho físico, ereção ou hormônio.
  • Contagem de artigo mede atenção acadêmica, não evidência de desfecho.

Os estudos que sustentam as alegações

Segundo o PubMed, estes são os trabalhos concretos por trás do que se diz sobre o cordyceps. A coluna Contexto diz qual fungo cada um usou.

EstudoNContextoO que relatouRessalva
Shu et al., 2025 (meta-análise)
Front Nutr 12:1670416 · PMID 41280379
14 ECRs, 528 atletas; 8 estudos (288) na meta-análiseSuplementos de fungos em atletas; para cordyceps, só C. sinensis foi agrupadoResistência p = 0,05 ("marginalmente significativa", 2 estudos); limiar ventilatório p = 0,03; VO2 pico p = 0,0411 dos 14 estudos com "algumas preocupações" de viés e 1 com risco alto; poucos estudos por desfecho
Chen S et al., 2010
J Altern Complement Med 16(5):585-90 · PMID 20804368
20Idosos de 50 a 75 anos; Cs-4 (micélio cultivado vendido como C. sinensis) 333 mg 3×/dia, 12 semanasLimiar metabólico +10,5% (p < 0,02) e ventilatório +8,5% no grupo Cs-4; VO2max sem mudança em nenhum grupoPiloto; comparação dentro do grupo
Parcell et al., 2004
Int J Sport Nutr Exerc Metab 14(2):236-42 · PMID 15118196
22Ciclistas treinados; Cs-4, 3 g/dia, 5 semanasNenhum efeito no VO2 pico, no limiar ventilatório ou no contrarrelógioO título resume: "não melhora o desempenho de resistência"
Earnest et al., 2004
Med Sci Sports Exerc 36(3):504-9 · PMID 15076794
17Ciclistas amadores; fórmula comercial com Cs-4, rhodiola e outros, 14 diasNenhuma diferença em VO2 pico, tempo até exaustão, potência ou limiares de lactatoMistura
Colson et al., 2005
J Strength Cond Res 19(2):358-63 · PMID 15903375
8Homens; C. sinensis + rhodiola contra placeboNenhuma diferença na oxigenação do músculo, no VO2max, no limiar ou no tempo até exaustãoMuito pequeno; mistura
Hirsch et al., 2017
J Diet Suppl 14(1):42-53 · PMID 27408987
28 (10 na fase de 3 semanas)Mistura de cogumelos com micélio de C. militaris cultivado em aveia, 4 g/dia1 semana: nada significativo. 3 semanas: VO2max +4,8 mL/kg/min (p = 0,042)Financiado por empresa de nutrição; mistura de espécies; 10 pessoas na fase longa
Dewi et al., 2024
Food Funct 15(8):4010-4020 · PMID 38501161
14Jovens; 1 g de C. sinensis antes de exercício intervalado; cruzado, biópsiasInfiltração de células necróticas menor; células CD34+ adiantadas para 3 h (+51%, p = 0,002); células Pax7+ quatro vezes maisMarcadores de biópsia, não força nem desempenho
Farzan e Koushkie Jahromi, 2026
PLoS One 21(7):e0351725 · PMID 42455764
12Homens ativos; 1 g de extrato de C. militaris 30 min antes de teste máximoVO2 de pico igual; frequência cardíaca e pressão sem efeito; tempo de reação mais rápido depois do exercícioDose única; desfecho cognitivo
Kreipke et al., 2021
J Diet Suppl 18(6):597-613 · PMID 33078636
21Homens ativos; mistura com rhodiola e C. sinensis, 14 semanas de treinoGordura, supino e agachamento melhoraram igual nos dois grupos; cortisol −11% nos dois; nenhuma mudança hormonalMistura
Pohsa et al., 2020
Biomed Res Int 2020:4198397 · PMID 33274209
ratosC. militaris cultivado, ratos diabéticos, 3 semanasNOS peniana, pressão intracavernosa, testosterona e espermatozoides em altaAnimal
Huang BM et al., 2001
Life Sci 69(22):2593-602 · PMID 11712663
célulasCélulas de Leydig normais de camundongo, C. sinensisMais produção de testosteronaIn vitro
Ma et al., 2018
Nutr Cancer 70(7):1166-1172 · PMID 30273008
camundongos e célulasC. sinensis em camundongos e células de câncer de próstataTestosterona maior, próstata maior, PSA maior; tumor que depende de andrógeno cresceu mais rápidoAnimal; é o mesmo mecanismo vendido como vantagem

Sobre função sexual em pessoas, a revisão de Jiraungkoorskul e Jiraungkoorskul (2016) cita estudos chineses de 1987 e 1988, como um de 189 pacientes com "melhora de 66%" do desejo, publicados em revistas chinesas que não estão no PubMed. NÃO VERIFIQUEI esses estudos: não sei se tinham grupo controle, nem qual preparação usaram.

Doses usadas em estudos humanos publicados

Isto não é recomendação de dose: é o registro do que foi administrado em estudos publicados, com a finalidade de cada um. Fora do contexto do estudo, esses números não se transferem.

EstudoDoseDuraçãoFinalidade do estudo
Chen S et al., 2010Cs-4 (micélio vendido como C. sinensis), 333 mg 3×/dia12 semanasDesempenho aeróbio em idosos
Parcell et al., 2004Cs-4, 3 g/dia5 semanasDesempenho de ciclistas
Earnest et al., 2004Fórmula: 3 cápsulas com 1.000 mg de Cs-4 e 300 mg de rhodiola; 6 cápsulas/dia por 4 dias e 3/dia por 11 dias15 diasDesempenho de ciclistas
Hirsch et al., 20174 g/dia de mistura de cogumelos com micélio de C. militaris1 e 3 semanasExercício de alta intensidade
Dewi et al., 20241 g de C. sinensis antes do exercícioDose únicaRecuperação do músculo em biópsia
Farzan e Koushkie Jahromi, 20261 g de extrato de C. militaris, 30 min antesDose únicaCognição e consumo de oxigênio no exercício
Nakamura et al., 2024 (segundo a meta-análise de 2025)1.800 mg/dia de extrato de micélio de C. militaris16 semanasAnemia em corredores

Nenhum vídeo informou dose. Nenhum estudo publicado que localizei testou dose para ereção ou testosterona em homens.

Das 20 alegações conferidas, só uma se confirma como foi dita: a altitude onde o fungo cresce

Cada linha é uma alegação como ela circula, sem o nome de quem a fez. O veredito usa seis rótulos: confirmado, parcialmente, não sustentado, sem estudo em humanos, estudo em animal ou in vitro e número não encontrado na fonte citada.

O que se dizO que os estudos mostramVeredito
Cresce a 4 mil metros no HimalaiaLarvas hospedeiras do O. sinensis a 4.100–4.650 m (Wu 2015); o complexo inseto–fungo é do planalto Qinghai-Tibete (Long 2021)Confirmado
"Viagra dos Himalaias" é nome de uso real, não de marketingO tratado tibetano do século XV se chama "Oceano de qualidades afrodisíacas" e diz que o fungo "aumenta especialmente o sêmen"; a comparação com o Viagra é modernaParcialmente
O primeiro registro escrito é de um médico tibetano do século XV, Zurkhar Nyamnyi DorjeZurkhar Nyamnyi Dorje viveu de 1439 a 1475 e escreveu um texto sobre o fungo; não conferi se é o primeiro registroParcialmente
Ele documentou o efeito na circulaçãoNa tradução inglesa do texto, os efeitos são sobre sêmen, vitalidade, descendência e sentidos; não há menção a circulação, vasos ou coraçãoNão sustentado
"600 anos" e, no mesmo vídeo, "700 anos" de usoO tratado é do século XV; os dois números do mesmo vídeo não batem entre siParcialmente
Abre as artérias do pênis "sem alterar os batimentos"Nenhum estudo humano mediu fluxo no pênis; numa dose única de C. militaris, a frequência cardíaca não mudou (Farzan 2026), o que não diz nada sobre o pênisSem estudo em humanos
Age pela eNOS, liberando óxido nítrico na parede do vasoNOS peniana em alta em ratos diabéticos (Pohsa 2020)Estudo em animal ou in vitro
A sildenafila bloqueia a enzima que destrói o óxido nítrico; o cordyceps faz o contrário, produz mais na fonteA sildenafila inibe a PDE5, que degrada o GMPc, não o óxido nítrico (bula)Não sustentado
"A ciência moderna nunca testou"45 artigos marcados como ensaio randomizado ou meta-análise e 35 registros de estudoNão sustentado
Não dá para patentear um fungo selvagem, então a indústria não se interessaExistem medicamentos chineses de marca feitos de C. sinensis fermentado (cápsula Bailing, segundo Guan 2023) e ensaios patrocinados por empresasNão sustentado
A maior parte do que se vende fora da região não é a espécie verdadeira, ou chega adulteradaO fungo selvagem custa US$ 20.000–40.000/kg (Lo 2013); os estudos e produtos usam micélio cultivado ou C. militaris; houve arsênio acima do limite em produtos chineses (2016). Não achei estimativa de quanto do mercado é adulteradoParcialmente
É o "fungo zumbi", parasita de insetoO O. sinensis parasita larvas de mariposa; os fungos que manipulam formigas são outras espécies de OphiocordycepsParcialmente
Supera o pré-treino de cafeínaNenhum estudo comparou com cafeína; dose única de 1 g não mudou o VO2 de pico (Farzan 2026); 1 semana de mistura não mudou nada (Hirsch 2017)Não sustentado
Multiplica o ATP das célulasNão localizei medida de ATP muscular em ensaio humanoSem estudo em humanos
Trava o acúmulo de ácido láticoEm 20 idosos, o limiar acima do qual o lactato acumula subiu 10,5% com Cs-4 (Chen 2010); em ciclistas, limiares de lactato e ventilatório não mudaram (Earnest 2004; Parcell 2004)Parcialmente
Dobra a carga; o músculo "recusa falhar"Nenhum ensaio mediu força com cordyceps sozinho; com mistura de rhodiola e cordyceps, supino e agachamento melhoraram igual ao placebo (Kreipke 2021)Não sustentado
Dilata os vasos na hora e joga oxigênio na fibraA oxigenação do músculo não mudou com cordyceps e rhodiola (Colson 2005)Não sustentado
A recuperação despenca; a fibra se reconstrói "no dobro da velocidade"Em biópsias de 14 jovens, células de reparo chegaram ao músculo mais cedo (Dewi 2024); recuperação funcional não foi medidaParcialmente
Atinge as células de Leydig e faz o corpo fabricar mais testosterona, "sem colateral"Células e camundongos (Huang 2001; Pao 2012); em homens, nenhuma mudança hormonal com mistura (Kreipke 2021); em camundongos, o aumento de testosterona acelerou câncer de próstata (Ma 2018)Estudo em animal ou in vitro
Joga o cortisol "no chão"Em 14 semanas, o cortisol caiu 11% nos dois grupos, sem diferença do placebo (Kreipke 2021)Não sustentado

Placar: 1 confirmada, 7 parcialmente, 8 não sustentadas, 2 sem estudo em humanos e 2 com estudo só em animal ou in vitro. Nenhuma alegação sobre ereção, testosterona ou força se confirmou.

A meta-análise mais nova diz menos do que parece

Shu e colegas (2025) juntaram 14 ensaios randomizados com fungos em 528 atletas, dos quais 8 (288 atletas) entraram na conta. Para o C. sinensis, a resistência melhorou com p = 0,05, que os próprios autores chamam de "marginalmente significativo", agrupando só 2 estudos; o limiar ventilatório (p = 0,03) e o VO2 pico (p = 0,04) também melhoraram, com baixa heterogeneidade. O resumo não publica o tamanho do efeito, e dos 14 estudos, 11 foram classificados com "algumas preocupações" de viés e 1 com risco alto.

Duas revisões do mesmo período chegam ao mesmo lugar por outro caminho. Dewi e Khemtong (2025) acharam melhora no tempo até a exaustão com 2 a 16 semanas de uso, mas efeito "inconsistente" na aptidão aeróbia. Jędrejko e colegas (2026), olhando só o C. militaris, acharam 5 estudos com 321 pessoas, doses de 1 a 12 g por dia, achados inconsistentes, a maioria sem registro e sem preparação padronizada.

É o retrato de um suplemento com sinal pequeno no desempenho aeróbio, testado em grupos pequenos, com produtos diferentes entre si. Nada disso é sobre ereção, testosterona ou carga no supino. É um sinal, não um desfecho duro.

Segurança, efeitos adversos e quem não deve usar sem médico

  • Arsênio. Segundo Li e colegas (2019), "resíduos altos de arsênio fazem do Cordyceps sinensis uma preocupação na China". Segundo o boletim regulatório ChemLinked, em 4 de março de 2016 a autoridade sanitária chinesa encerrou o programa piloto de alimentos saudáveis com cordyceps, criado em 2012, depois de achar 4,4 a 9,9 mg de arsênio por quilo em amostras, contra limite de 1,0 mg/kg. NÃO VERIFIQUEI o aviso original chinês. O problema é do fungo selvagem; não localizei dado equivalente para o C. militaris cultivado.
  • Sangramento. A revisão de Hatfield e colegas (2022) classifica o C. sinensis como "fracamente associado" a sangramento cirúrgico, mesmo sem anticoagulante, e recomenda parar suplementos não essenciais duas semanas antes de cirurgia.
  • Próstata. Em camundongos, Ma e colegas (2018) viram o C. sinensis subir a testosterona, aumentar a próstata e o PSA e acelerar um tumor de próstata dependente de andrógeno; o efeito sumiu com um bloqueador de andrógeno. Os autores pedem estudos sobre a segurança em pacientes com câncer de próstata. Que isso valha para homens é inferência minha, sem estudo humano.
  • Toxicidade aguda. O O. sinensis cultivado não foi tóxico em doses únicas altas em camundongos nem genotóxico em células (Long 2021). Nos ensaios humanos de 1 a 16 semanas, não localizei eventos adversos graves nos resumos, mas a maioria não descreve a vigilância de segurança.
  • Quem não deve usar sem médico: quem vai operar, quem usa anticoagulante ou antiagregante, e homem com câncer de próstata ou PSA alterado. Os dois primeiros vêm da revisão de 2022; o terceiro é inferência minha a partir do estudo em camundongos.
  • Interações formais: NÃO VERIFIQUEI bases de interação medicamentosa.

Status regulatório

  • Brasil, suplemento alimentar: o cordyceps (Ophiocordyceps sinensis ou Cordyceps militaris) não consta do Anexo I da IN 28/2018, na versão consolidada com alterações até a IN 470, de 16 de setembro de 2026. Pela RDC 243/2018 (art. 4º), suplemento só pode conter os constituintes dessa lista ou os aprovados por Resolução específica. NÃO VERIFIQUEI se existe Resolução avulsa.
  • Brasil, medicamento: nenhum registro com cordyceps no dado aberto da ANVISA (tabela abaixo).
  • China: existem medicamentos chineses de marca com C. sinensis fermentado, como a cápsula Bailing, segundo Guan e colegas (2023). O programa piloto de alimentos com cordyceps foi encerrado em 2016 por arsênio, segundo o ChemLinked.
  • Estados Unidos e União Europeia: NÃO VERIFIQUEI a situação do cordyceps como ingrediente de suplemento ou como novo alimento.
  • WADA: o cordyceps não aparece na Lista Proibida de 2026, em vigor desde 1º de janeiro de 2026. Não avaliei o risco de contaminação de suplementos.

No Brasil, busquei no dado aberto de medicamentos registrados da ANVISA, no princípio ativo e no nome do produto, sem acento e sem diferença de caixa.

Princípio ativoPadrão buscadoRegistros ativosClasse terapêutica declaradaProdutos
cordycepscordycep0—nenhum produto, ativo ou inativo

O que este levantamento não fez

  • Li resumos e trechos de texto integral, não os artigos inteiros. Da meta-análise de 2025 li os resultados e a tabela de estudos, sem os gráficos.
  • Não conferi os estudos chineses de função sexual dos anos 1980, citados por revisões e publicados fora do PubMed.
  • Não li o aviso original da autoridade chinesa de 2016; os números vêm do boletim ChemLinked.
  • Não conferi se o tratado de Zurkhar Nyamnyi Dorje é o primeiro registro do fungo, nem a tradução tibetana original; li a tradução inglesa publicada no site mushroaming.com.
  • Não conferi a situação regulatória nos Estados Unidos e na União Europeia.
  • Não avaliei interações em base de interações medicamentosas.
  • Não li os 47 artigos de óxido nítrico sintase nem os 21 de arsênio; li os que estão na tabela.
  • Não avaliei a rhodiola, que aparece nas misturas; ela tem página própria (rhodiola-e-ginseng-siberiano).

Referências

Esta página não veio da fonte secundária. Cada número desta página foi levantado por mim em 7 de outubro de 2026 no PubMed, no ClinicalTrials.gov, na bula da sildenafila no DailyMed, no texto consolidado da IN 28/2018 e da RDC 243/2018 da ANVISA, no dado aberto de medicamentos da ANVISA e na Lista Proibida da WADA de 2026, e a consulta usada está declarada acima. Li resumos e trechos de texto integral, não os artigos inteiros. As contagens das tabelas com consulta, no PubMed e no ClinicalTrials.gov, foram refeitas por mim em 16 de outubro de 2026.
  1. Shu MY, Zhang XC, Zuo L, et al. Effects of fungal supplementation on endurance, immune function, and hematological profiles in adult athletes: a systematic review and meta-analysis. Front Nutr. 2025;12:1670416. PMID 41280379 — C. sinensis: resistência p = 0,05, limiar ventilatório p = 0,03, VO2 pico p = 0,04.
  2. Dewi L, Khemtong C. Ergogenic Aid by Cordyceps: Does It Work?? Curr Nutr Rep. 2025;14(1):97. PMID 40768109 — melhora no tempo até exaustão, aptidão aeróbia inconsistente.
  3. Jędrejko M, Jędrejko K, Granda D, et al. Current Evidence of Ergogenic and Post-Exercise Recovery Effects of Dietary Supplementation with Cordyceps militaris in Humans-A Narrative Review. Nutrients. 2026;18(5):781. PMID 41829950 — 5 estudos com C. militaris, achados inconsistentes.
  4. Chen S, Li Z, Krochmal R, et al. Effect of Cs-4 (Cordyceps sinensis) on exercise performance in healthy older subjects: a double-blind, placebo-controlled trial. J Altern Complement Med. 2010;16(5):585-90. PMID 20804368 — limiar metabólico +10,5% em 20 idosos.
  5. Parcell AC, Smith JM, Schulthies SS, et al. Cordyceps Sinensis (CordyMax Cs-4) supplementation does not improve endurance exercise performance. Int J Sport Nutr Exerc Metab. 2004;14(2):236-42. PMID 15118196 — nenhum efeito em 22 ciclistas.
  6. Earnest CP, Morss GM, Wyatt F, et al. Effects of a commercial herbal-based formula on exercise performance in cyclists. Med Sci Sports Exerc. 2004;36(3):504-9. PMID 15076794 — fórmula com cordyceps e rhodiola sem efeito, inclusive nos limiares de lactato.
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  28. Registro NCT02814617 no ClinicalTrials.gov — "extrato de cultura de micélio de Cordyceps sinensis (Paecilomyces hepiali)", fase 2/3, imunidade.
  29. Instrução Normativa nº 28, de 26 de julho de 2018, da ANVISA, texto consolidado no AnvisaLegis — lista de constituintes autorizados em suplemento alimentar, sem cordyceps.
  30. Resolução RDC nº 243, de 26 de julho de 2018, da ANVISA, texto consolidado no AnvisaLegis — o art. 4º restringe os constituintes de suplemento às listas da IN 28/2018.
  31. Dado aberto de medicamentos registrados da ANVISA — a mesma base usada na página O que existe no Brasil.
  32. Lista Proibida da WADA de 2026 (cópia mantida pela Universidade do Esporte de Colônia) — o cordyceps não aparece.
  33. E-utilities do PubMed (esearch) — a base de todas as contagens de artigo desta página.
  34. API pública do ClinicalTrials.gov, versão 2 — a base de todas as contagens de estudo e de fase 3 desta página.

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