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Compostos › Verificado em fonte primária

Glicina antes de dormir (sono e GH)

O "70% do GH" não é aumento: é a parte do GH do homem que sai no começo do sono; nenhum estudo de glicina antes de dormir mediu GH.

Não aprovadoVerificado em fonte primária
Ilustração gerada por IA. Não é dado, nem imagem de estudo.

Material experimental. Leia antes de usar qualquer coisa daqui.

Nada nesta página é recomendação médica, prescrição ou plano de tratamento. É uma tradução organizada de protocolos que circulam em comunidades de pesquisa e, quando existe, do que ensaios publicados testaram. As duas coisas estão marcadas de forma diferente — e não são equivalentes.

A maior parte dos compostos aqui não tem aprovação da ANVISA nem da FDA para uso humano. Vários são vendidos com rótulo de "uso exclusivo em pesquisa", o que significa que não passaram por controle de pureza, esterilidade ou dosagem para consumo por pessoas. Dose descrita por comunidade não é dose validada: é o que alguém relatou ter feito.

Converse com um profissional de saúde habilitado antes de considerar qualquer um destes compostos. Se você já usa algum e sentir algo fora do previsto, procure atendimento — não espere o próximo exame de rotina.

Atenção específica deste composto: Os 3 g por dia que circulam ficam um pouco acima do máximo que a ANVISA permite em suplemento (2.980 mg por dia, só para maiores de 19 anos), e os 22 g ficam muito acima. Pela regra brasileira, suplemento de glicina não é autorizado para crianças, adolescentes, gestantes e lactantes. A evidência de sono vem de estudos pequenos, assinados pelo mesmo grupo de autores, que inclui um pesquisador de uma fabricante de glicina.

Resumo

A glicina é o aminoácido mais simples, fabricado pelo próprio corpo. Dois estudos japoneses, feitos com pesquisadores de uma fabricante de glicina, deram 3 g antes de dormir e viram adormecer mais rápido, chegar antes ao sono profundo e menos sonolência no dia seguinte. A explicação pela queda de temperatura e pelo núcleo supraquiasmático vem de ratos. O "70%" dos vídeos é um dado de fisiologia: em homens, cerca de 70% do GH diário sai no começo do sono. Nenhum estudo mediu GH no sono depois de glicina. O estudo de 1978 citado para o "pico que quase triplica" existe, mas não traz 22 g nem a palavra triplica no resumo. No Brasil, o máximo de glicina em suplemento é 2.980 mg por dia, só para adultos.

Por que esta página existe

A glicina aparece descrita em vídeos curtos sobre saúde masculina que vi publicados na internet, como um "pó de 30 reais" que, em 3 g meia hora antes de dormir, faria "70% do seu GH disparar". A explicação oferecida é térmica: a glicina ativaria receptores NMDA no núcleo supraquiasmático do cérebro, jogaria calor para fora pelas mãos e pés, baixaria a temperatura do corpo em quase um grau e abriria a porta para o sono de ondas lentas, quando sai a maior parte do hormônio do crescimento. Errar o horário "por 40 minutos" já seria hormônio perdido, e sem uma "combinação" não revelada a glicina daria "só metade do efeito". Uma variante promete que 22 g numa dose só "quase triplicam" o pico de GH em duas horas. Outra traz uma cronologia de 30 dias que termina com creatina "fabricada de dentro para fora", colágeno ligado e inflamação "zerada".

Levantei as alegações de 6 vídeos curtos e separei as 19 que são verificáveis. Fui atrás dos estudos citados — a revista Sleep and Biological Rhythms, um pesquisador japonês chamado nos vídeos de "Banay" e um artigo de 1978 da revista Metabolism — e do que o PubMed devolve sobre glicina, sono, GH, creatina e colágeno. Nenhum número desta página veio da fonte secundária do site.

A glicina é o menor dos aminoácidos. O corpo a fabrica, sobretudo a partir da serina, e ela entra na composição do colágeno, da creatina e de outras moléculas. No sistema nervoso, faz dois papéis: é neurotransmissor inibitório e é coagonista obrigatório do receptor NMDA, como resume a revisão de Bannai e Kawai (2012).

Este site trata de assunto vizinho também em Suplementos de venda livre, O eixo do GH fora do frasco de peptídeo, Creatina (monoidratada) e Niacina (ácido nicotínico) e hormônio do crescimento.

O mecanismo foi descrito em ratos

A explicação térmica dos vídeos não foi inventada: está num artigo de 2015 de Kawai e colegas, pesquisadores da Ajinomoto, empresa japonesa que produz glicina, com um laboratório da Universidade Stanford. Em ratos, a glicina por boca induziu sono não REM, encurtou o tempo até ele e baixou a temperatura central, enquanto aumentava o fluxo de sangue na pele da sola das patas, o que faz perder calor. Quando a glicina foi injetada diretamente no núcleo supraquiasmático, o fluxo na pele subiu; quando esse núcleo foi destruído, o efeito sobre o sono e a temperatura sumiu; e bloqueadores do receptor NMDA impediram a resposta.

Outro estudo do mesmo grupo, em ratos (Kawai 2012), mostrou que a glicina por boca chega ao líquido do cérebro, mas em concentração 100 vezes menor que no sangue, e com uma dose de 2 g por quilo de peso.

Em pessoas, a parte humana do mecanismo é inferência dos autores: o início do sono costuma vir acompanhado de queda da temperatura central, e a glicina baixa a temperatura nos ratos, então isso "poderia" explicar o efeito no sono humano. Não localizei estudo humano que tenha medido a temperatura central depois de glicina pura, nem o "quase um grau" dos vídeos. O estudo humano mais próximo deu 15 g por noite de peptídeos de colágeno, que são ricos em glicina, a 13 homens atletas por 7 noites, e mediu a temperatura central na última: não houve diferença em relação ao placebo (Thomas 2024).

Quanta evidência existe, de verdade

Os números abaixo foram levantados por mim em 16 de outubro de 2026, no PubMed e no ClinicalTrials.gov. A consulta de cada linha está ao lado do número, para qualquer pessoa repetir e me contradizer.

BaseConsultaResultado
PubMedglycine AND sleep387 artigos
PubMed(glycine[Title/Abstract]) AND (sleep[Title/Abstract]) AND (oral[Title/Abstract] OR ingestion[Title/Abstract] OR supplement*[Title/Abstract] OR bedtime[Title/Abstract])31 artigos
PubMed(glycine[Title/Abstract]) AND (sleep[Title/Abstract]) AND (Randomized Controlled Trial[Publication Type] OR Meta-Analysis[Publication Type])3 artigos
PubMed(glycine[Title/Abstract]) AND (sleep[Title/Abstract]) AND (growth hormone[Title/Abstract])2 artigos
PubMed(glycine[Title/Abstract]) AND (growth hormone[Title/Abstract]) AND humans[MeSH Terms]70 artigos
PubMed(glycine[Title/Abstract]) AND (supplementation[Title/Abstract] OR oral[Title/Abstract]) AND (Randomized Controlled Trial[Publication Type] OR Meta-Analysis[Publication Type])204 artigos
ClinicalTrials.govintervenção: glycine244 estudos registrados
ClinicalTrials.govintervenção: (glycine) AND AREA[Phase]PHASE324 ensaios de fase 3
ClinicalTrials.govintervenção: glycine; condição: sleep4 estudos registrados

Leitura honesta desses números

  • Os dois estudos de sono mais citados não estão no PubMed. O de Yamadera e colegas (2007) e o de Inagawa e colegas (2006) saíram na Sleep and Biological Rhythms, revista que essas buscas não pegam. Conferi os dois pelo registro de publicação (Crossref): existem, nessa revista, nesses anos.
  • Os 3 "ensaios randomizados" de glicina e sono no PubMed não testam glicina sozinha para dormir. Um testa peptídeos de colágeno ricos em glicina; outro, uma mistura de triptofano, glicina, magnésio, cereja e L-teanina; o terceiro, de 1999, mede memória e atenção com glicina. A revisão de 2026 que mapeou a literatura achou 3 ensaios de glicina com desfecho de sono.
  • Glicina, sono e GH juntos: 2 artigos, nenhum sobre o efeito da glicina no GH do sono. Um é uma revisão de mecanismos do sono em sérvio; o outro, de 1988, é sobre crianças com baixa estatura.
  • Os registros no ClinicalTrials.gov falam de outra coisa. Nenhum dos 4 registros de glicina com condição "sono" é um ensaio de glicina para dormir: os títulos são de acupressão e massagem depois de cesárea, de um estudo chamado "Poweroff" sobre sono, de suplementação nutricional no futebol e de distúrbio de linguagem infantil.
  • Contagem de artigo mede atenção acadêmica, não evidência de desfecho.

Os estudos que sustentam as alegações

Segundo o PubMed e o registro Crossref, estes são os trabalhos concretos por trás do que se diz sobre glicina, sono e GH. Leia o que cada um mediu, em quem e com quem.

EstudoNContextoO que relatouRessalva
Yamadera et al., 2007
Sleep Biol Rhythms 5(2):126-131 · doi:10.1111/j.1479-8425.2007.00262.x
não informado no resumoVoluntários com sono insatisfatório contínuo; 3 g de glicina antes de deitar; polissonografiaMelhor qualidade subjetiva e eficiência do sono; menor tempo até adormecer e até o sono de ondas lentas, sem mudar a arquitetura do sono; menos sonolência diurna e melhor memória de reconhecimentoFora do PubMed; Bannai, pesquisador da Ajinomoto nos artigos indexados, entre os autores; não mediu GH nem temperatura
Inagawa et al., 2006
Sleep Biol Rhythms 4(1):75-77 · doi:10.1111/j.1479-8425.2006.00193.x
não verificadoGlicina antes de dormir e qualidade subjetiva do sonoNÃO VERIFIQUEI: o resumo não estava disponível nas bases que consulteiExistência conferida no Crossref
Bannai et al., 2012
Front Neurol 3:61 · PMID 22529837
não informado no resumoVoluntários saudáveis com sono restrito em 25% por 3 noites; 3 g de glicina ou placebo antes de deitar; parte em ratosMenos fadiga e tendência a menos sonolência; melhora no teste de vigilância psicomotora; em ratos, sem mudança na melatonina nem nos genes do relógioAutores da Ajinomoto; o "relógio biológico" não mudou nos ratos
Kawai et al., 2015
Neuropsychopharmacology 40(6):1405-16 · PMID 25533534
ratosGlicina por boca, no cérebro e no núcleo supraquiasmáticoSono não REM mais rápido, queda da temperatura central, mais fluxo de sangue na pele das patas; efeito some sem o núcleo supraquiasmático e com bloqueio do NMDASó animal; Ajinomoto e Stanford
Kawai et al., 2012
Amino Acids 42(6):2129-37 · PMID 21647662
ratos2 g/kg de glicina por bocaGlicina no líquido do cérebro acima do limiar do receptor NMDA, mas 100 vezes menor que no sangueSó animal; dose por quilo muito alta
Kasai et al., 1978
Metabolism 27(2):201-8 · PMID 622050
19 saudáveis + 12 com gastrectomia250 ml de glicina 0,3 M por boca; também no duodenoGH subiu de modo significativo (p < 0,001), sem mudar insulina, prolactina e glicose; subiu mais com gastrectomia e por via duodenalÉ o artigo de 1978 dos vídeos; o resumo não traz 22 g nem "triplica"
Kasai et al., 1980
Acta Endocrinol (Copenh) 93(3):283-6 · PMID 7376793
não informado no resumo4, 8 ou 12 g de glicina na veia em 15 ou 30 minGH subiu de modo dependente da dose; com 12 g, glicose subiu de forma transitóriaVia venosa, não oral
Van Cauter et al., 1998 (revisão)
Sleep 21(6):553-66 · PMID 9779515
revisãoSono e eixo do GHEm homens, cerca de 70% da produção diária de GH acontece no início do sono, ligada ao primeiro sono de ondas lentas; relação linear entre quantidade de sono de ondas lentas e de GHFisiologia, sem glicina
Van Cauter et al., 2000
JAMA 284(7):861-8 · PMID 10938176
149 homensHomens saudáveis de 16 a 83 anosSono de ondas lentas caiu de 18,9% (16 a 25 anos) para 3,4% (36 a 50 anos), e o GH caiu 372 µg por década no mesmo períodoObservacional; mostra a ligação com a idade, não o efeito de suplemento
Gannon et al., 2002
Am J Clin Nutr 76(6):1302-7 · PMID 12450897
9Saudáveis; glicina, glicose, as duas ou água, em ordem sorteadaCom glicose, a glicina reduziu a resposta de glicose em mais de 50%Dose única, 9 pessoas
Heresco-Levy et al., 2004
Biol Psychiatry 55(2):165-71 · PMID 14732596
17Esquizofrenia, com antipsicótico; 0,8 g/kg/dia de glicina, 6 semanas, cruzado, com placeboBem tolerada; sintomas negativos −23% ± 8%Outra indicação; mostra tolerância a dose alta em uso médico
Soh et al., 2024 (revisão sistemática)
Geroscience 46(1):219-239 · PMID 37851316
18 estudos em saudáveis e 34 em doentesGlicina em adultos, saudáveis e doentesSono melhor em saudáveis com uso mais longo, mas em estudos pequenos com alto risco de viésRevisão ampla, não só de sono
Thomas et al., 2024
Eur J Nutr 63(1):323-335 · PMID 37874350
13Homens atletas com queixa de sono; 15 g/dia de peptídeos de colágeno ricos em glicina ou placebo, 1 h antes de deitar, 7 noites, cruzadoMenos despertares na polissonografia (21,3 contra 29,3); sem diferença em temperatura central, função endócrina, latência, duração e eficiência do sonoColágeno, não glicina pura

Doses usadas em estudos humanos publicados

Isto não é recomendação de dose: é o registro do que foi administrado em estudos publicados, com a finalidade de cada um. Fora do contexto do estudo, esses números não se transferem.

EstudoDoseDuraçãoFinalidade do estudo
Yamadera et al., 20073 g, por boca, antes de deitarNão informado no resumoQualidade do sono, polissonografia
Bannai et al., 20123 g, por boca, antes de deitar3 noites com sono restritoSonolência, fadiga e desempenho no dia seguinte
Kasai et al., 1978250 ml de glicina 0,3 M, por bocaDose únicaGH, insulina, prolactina
Kasai et al., 19804, 8 ou 12 g, na veiaDose únicaGH e prolactina
Gannon et al., 20021 mmol por kg de massa magra, por bocaDose únicaGlicose, insulina e glucagon
Heresco-Levy et al., 20040,8 g/kg/dia, por boca, com antipsicótico6 semanasSintomas de esquizofrenia

Pela Instrução Normativa nº 28/2018 da ANVISA, na versão consolidada até setembro de 2026, o máximo de glicina num suplemento é 2.980 mg por dia, só para maiores de 19 anos. Os 3 g dos estudos de sono ficam um pouco acima desse teto.

Das 19 alegações, a do sono mais rápido se confirma; a do GH, não foi medida

Cada linha é uma alegação como ela circula, sem o nome de quem a fez. O veredito usa seis rótulos: confirmado, parcialmente, não sustentado, sem estudo em humanos, estudo em animal ou in vitro e número não encontrado na fonte citada.

O que se dizO que os estudos mostramVeredito
"3 gramas e 70% do seu GH disparam"; "GH +70% enquanto você dorme"O 70% não é aumento: é a parte do GH diário que sai no início do sono em homens (Van Cauter 1998). Nenhum estudo mediu GH depois de glicina antes de dormirNão sustentado
Estudo na Sleep and Biological Rhythms: 3 g, 30 minutos antes de dormirO estudo existe e usou 3 g antes de deitar (Yamadera 2007); os "30 minutos" não estão no resumoConfirmado (na dose; o horário exato não verifiquei)
O ensaio "de Banay" provou o efeito "direto no cérebro"Bannai assina os estudos humanos de sono; o efeito no cérebro (núcleo supraquiasmático, NMDA) foi mostrado em ratos (Kawai 2015)Parcialmente
A temperatura central do corpo caiEm ratos (Kawai 2015). Em 13 homens, 15 g de peptídeos de colágeno ricos em glicina não mudaram a temperatura central (Thomas 2024); não localizei medida com glicina puraEstudo em animal ou in vitro
Ativa receptores NMDA no núcleo supraquiasmático e joga calor para fora pelas mãos e pésEm ratos, pelo NMDA no núcleo supraquiasmático, com mais fluxo de sangue na pele das patas (Kawai 2015)Estudo em animal ou in vitro
A glicina cruza a barreira do cérebro e bate direto nesses receptoresEm ratos, com 2 g/kg, chegou ao líquido do cérebro em concentração 100 vezes menor que no sangue (Kawai 2012)Estudo em animal ou in vitro
O sono de ondas lentas chega mais rápidoMenor tempo até o sono de ondas lentas na polissonografia, com 3 g (Yamadera 2007)Confirmado (em estudo pequeno, com autor da fabricante)
Adormece mais rápido, "sem acordar dopado", com o sono pesado na primeira metade da noiteMenor tempo até adormecer, menos sonolência diurna (Yamadera 2007), menos fadiga com sono restrito (Bannai 2012); "primeira metade da noite" não foi medidoParcialmente
70% dos pulsos de GH da noite acontecem só no sono de ondas lentasCerca de 70% da produção diária de GH dos homens sai no início do sono, ligada ao primeiro sono de ondas lentas (Van Cauter 1998). A frase dos vídeos troca "produção diária" por "pulsos da noite"Parcialmente
Quanto mais rápido se entra no sono profundo, mais GH; "correlação documentada"A relação documentada é com a quantidade de sono de ondas lentas, não com a rapidez para chegar a ele (Van Cauter 1998)Parcialmente
A glicina "destrava a hipófise no talo" durante o sonoNenhum estudo localizado mediu GH no sono depois de glicinaSem estudo em humanos
O mecanismo é "conhecido desde os anos 90"A ligação entre sono profundo e GH é mais antiga; os estudos de glicina e sono são de 2006 e 2007, e o mecanismo em ratos, de 2015Não sustentado
Errar o horário "por 40 minutos" já é hormônio perdidoNenhum estudo localizadoSem estudo em humanos
Sozinha, a glicina dá "só metade do efeito"; uma combinação "triplica a absorção"Nenhum estudo localizado; a combinação nem é nomeadaSem estudo em humanos
Se o cérebro não esfria "quase um grau", não se afunda no sonoO valor de um grau não aparece nos estudos que localizei; a queda de temperatura com glicina foi medida em ratosNúmero não encontrado na fonte citada
22 g numa dose única fazem o pico de GH "quase triplicar" em 2 horas (Metabolism, 1978)O artigo existe: glicina por boca elevou o GH de 19 pessoas saudáveis (p < 0,001). A dose descrita no resumo é 250 ml de solução 0,3 M, não 22 g, e o resumo não fala em triplicar (Kasai 1978)Número não encontrado na fonte citada
A partir do sétimo dia, a glicina "força o organismo a fabricar creatina pura" e a força disparaA glicina é uma das três matérias-primas da creatina, mas a síntese de creatina "não parece pesar" sobre a glicina em adultos, que a fabricam com facilidade; o gargalo são os grupos metila e a arginina (Brosnan 2011). Nenhum estudo de força com glicinaNão sustentado
A glicose "regula" e a energia volta entre as sériesNuma dose única com glicose, a glicina reduziu a resposta de glicose em mais de 50% em 9 pessoas (Gannon 2002); "energia entre séries" não foi estudadoParcialmente
Do dia 17 ao 30, liga a "máquina de colágeno", a inflamação "zera" e as articulações ficam "blindadas"Há uma hipótese, feita por cálculo, de que a glicina disponível não basta para todo o colágeno (Meléndez-Hevia 2009), e um estudo em células de cartilagem, in vitro (de Paz-Lugo 2018); não localizei ensaio humano de articulação. A revisão de 2024 diz que a glicina "pode" reduzir inflamaçãoNão sustentado

Placar: 2 confirmadas, 5 parcialmente, 4 não sustentadas, 3 sem estudo em humanos, 3 só em animal e 2 com número não encontrado na fonte citada.

O "70%" é fisiologia, não promessa

O número que abre quase todos os vídeos vem de um dado real, publicado e antigo. Van Cauter e colegas, numa revisão de 1998, escrevem que em homens adultos cerca de 70% da produção diária de GH acontece no início do sono, num grande pulso ligado ao primeiro período de sono de ondas lentas. Em mulheres, a fração ligada ao sono é menor e mais variável. Os mesmos autores mostraram, em 149 homens, que o sono de ondas lentas cai de 18,9% do sono na juventude para 3,4% na meia-idade, e que o GH cai junto.

O que os vídeos fazem é trocar o sujeito da frase. "70% do GH sai no sono profundo" vira "70% do seu GH dispara com glicina" e, num deles, "GH +70% enquanto você dorme". Nenhum estudo de glicina mediu o GH durante o sono. O que se sabe é que a glicina, em dois estudos pequenos, fez as pessoas chegarem antes ao sono profundo. Se isso aumenta o GH da noite, ninguém mediu. A relação que Van Cauter documentou é com a quantidade de sono de ondas lentas, não com a rapidez para chegar a ele.

Todo estudo humano de sono tem a mesma assinatura

Os três estudos humanos de glicina pura e sono que localizei saíram do mesmo grupo de autores: Inagawa e Yamadera assinam os de 2006 e 2007, e Makoto Bannai assina o de 2007 e o de 2012. Nos artigos indexados no PubMed, Bannai aparece como pesquisador da Ajinomoto, empresa que produz glicina. O mecanismo em ratos também saiu desse grupo. Isso não torna os resultados falsos, mas quer dizer que a base inteira vem de uma fonte só, com interesse no produto. A revisão sistemática de 2024 resume a situação: houve melhora de sono em pessoas saudáveis, em estudos "pequenos" e com "alto risco de viés".

Segurança, efeitos adversos e quem não deve usar

  • Em doses de estudo, tolerância boa. Em 17 pessoas com esquizofrenia, 0,8 g por quilo por dia durante 6 semanas foi "bem tolerado" (Heresco-Levy 2004). É dose muito acima da dos vídeos, em uso médico, com acompanhamento.
  • Glicose. Numa dose única, a glicina reduziu a resposta de glicose de pessoas saudáveis. Em quem usa remédio para diabetes, somar efeito é inferência minha, sem estudo localizado.
  • Glicose com dose alta na veia. Com 12 g na veia, a glicose subiu de forma transitória (Kasai 1980). Não se aplica ao pó por boca, mas mostra que a resposta depende de dose e via.
  • Interações formais: NÃO VERIFIQUEI em base de interações. A glicina age no receptor NMDA; quem usa remédio psiquiátrico ou neurológico deve falar com o médico antes — inferência minha, sem estudo de interação localizado.
  • Quem não deve usar: pela regra brasileira, crianças, adolescentes, gestantes e lactantes — o suplemento de glicina não é autorizado para esses grupos. Para os demais, a dose diária do suplemento não pode passar de 2.980 mg.

Status regulatório

  • Brasil, suplemento alimentar: a glicina consta do Anexo I da IN 28/2018, a lista de constituintes autorizados, na versão consolidada com alterações até a IN nº 470, de 16 de setembro de 2026. O máximo por recomendação diária é 2.980 mg, só para maiores de 19 anos; para crianças, adolescentes, gestantes e lactantes, "não autorizado"; o mínimo é "não estabelecido". A glicina não tem alegação autorizada no Anexo V, e pela RDC 243/2018 (art. 16) só as alegações dessa lista podem ir ao rótulo: "melhora o sono" e "aumenta o GH" não são alegações permitidas.
  • Brasil, medicamento: há 17 registros ativos com glicina no dado aberto da ANVISA, todos de nutrição na veia ou de solução para cirurgia urológica (tabela abaixo). Nenhum é glicina por boca para sono.
  • Estados Unidos e União Europeia: NÃO VERIFIQUEI a situação da glicina como ingrediente de suplemento.
  • WADA: a glicina não aparece na Lista Proibida de 2026.

No Brasil, busquei no dado aberto de medicamentos registrados da ANVISA, no princípio ativo e no nome do produto, sem acento e sem diferença de caixa.

Princípio ativoPadrão buscadoRegistros ativosClasse terapêutica declaradaProdutos
glicina(^|[^a-z])glicina([^a-z]|$)17Nutrientes parenterais; reposição hidroeletrolítica e alimentação parenteral; produtos para vias urináriasSoluções de aminoácidos e emulsões para nutrição na veia; duas soluções de glicina para irrigação urológica

Registro de solução de glicina para cirurgia não diz nada sobre o pó vendido como suplemento.

O que este levantamento não fez

  • Li resumos, não os artigos inteiros. Em especial, NÃO VERIFIQUEI o número de participantes de Yamadera (2007) e de Bannai (2012), nem o resumo de Inagawa (2006), que não estava disponível no Crossref nem no Semantic Scholar.
  • Não localizei estudo humano que tenha medido a temperatura central depois de glicina pura; o único com medida usou colágeno.
  • Não localizei estudo que tenha medido GH durante o sono depois de glicina, nem estudo de força, creatina muscular ou articulação com glicina.
  • Não converti a dose de 1978 (250 ml de solução 0,3 M) para gramas; registro apenas que o resumo não traz 22 g.
  • Não verifiquei a situação regulatória da glicina nos Estados Unidos e na União Europeia.
  • Não avaliei interações em base de interações medicamentosas.

Referências

Esta página não veio da fonte secundária. Cada número desta página foi levantado por mim em 7 de outubro de 2026 no PubMed, no registro Crossref, no ClinicalTrials.gov, no texto consolidado da IN 28/2018 e da RDC 243/2018 da ANVISA, no dado aberto de medicamentos da ANVISA e na Lista Proibida da WADA de 2026, e a consulta usada está declarada acima. Li resumos, não os artigos inteiros. As contagens das tabelas com consulta, no PubMed e no ClinicalTrials.gov, foram refeitas por mim em 16 de outubro de 2026.
  1. Yamadera W, Inagawa K, Chiba S, et al. Glycine ingestion improves subjective sleep quality in human volunteers, correlating with polysomnographic changes. Sleep Biol Rhythms. 2007;5(2):126-131. doi:10.1111/j.1479-8425.2007.00262.x — 3 g antes de deitar; menos tempo até adormecer e até o sono de ondas lentas.
  2. Inagawa K, Hiraoka T, Kohda T, et al. Subjective effects of glycine ingestion before bedtime on sleep quality. Sleep Biol Rhythms. 2006;4(1):75-77. doi:10.1111/j.1479-8425.2006.00193.x — o primeiro estudo de glicina e sono; resumo não verificado.
  3. Bannai M, Kawai N, Ono K, et al. The effects of glycine on subjective daytime performance in partially sleep-restricted healthy volunteers. Front Neurol. 2012;3:61. PMID 22529837 — menos fadiga com sono restrito; relógio dos ratos inalterado.
  4. Bannai M, Kawai N. New therapeutic strategy for amino acid medicine: glycine improves the quality of sleep. J Pharmacol Sci. 2012;118(2):145-8. PMID 22293292 — revisão do grupo; a queda de temperatura como mecanismo proposto.
  5. Kawai N, Sakai N, Okuro M, et al. The sleep-promoting and hypothermic effects of glycine are mediated by NMDA receptors in the suprachiasmatic nucleus. Neuropsychopharmacology. 2015;40(6):1405-16. PMID 25533534 — o mecanismo dos vídeos, em ratos.
  6. Kawai N, Bannai M, Seki S, et al. Pharmacokinetics and cerebral distribution of glycine administered to rats. Amino Acids. 2012;42(6):2129-37. PMID 21647662 — glicina no líquido do cérebro de ratos, 100 vezes abaixo do sangue.
  7. Kasai K, Kobayashi M, Shimoda SI. Stimulatory effect of glycine on human growth hormone secretion. Metabolism. 1978;27(2):201-8. PMID 622050 — o artigo de 1978: GH sobe, sem 22 g nem "triplica" no resumo.
  8. Kasai K, Suzuki H, Nakamura T, et al. Glycine stimulated growth hormone release in man. Acta Endocrinol (Copenh). 1980;93(3):283-6. PMID 7376793 — resposta do GH dependente da dose, na veia.
  9. Van Cauter E, Plat L, Copinschi G. Interrelations between sleep and the somatotropic axis. Sleep. 1998;21(6):553-66. PMID 9779515 — a origem do "70%": parte do GH diário dos homens no início do sono.
  10. Van Cauter E, Leproult R, Plat L. Age-related changes in slow wave sleep and REM sleep and relationship with growth hormone and cortisol levels in healthy men. JAMA. 2000;284(7):861-8. PMID 10938176 — sono profundo e GH caem juntos com a idade.
  11. Gannon MC, Nuttall JA, Nuttall FQ. The metabolic response to ingested glycine. Am J Clin Nutr. 2002;76(6):1302-7. PMID 12450897 — glicina reduz a resposta de glicose em 9 pessoas.
  12. Brosnan JT, da Silva RP, Brosnan ME. The metabolic burden of creatine synthesis. Amino Acids. 2011;40(5):1325-31. PMID 21387089 — a síntese de creatina não pesa sobre a glicina em adultos.
  13. Meléndez-Hevia E, De Paz-Lugo P, Cornish-Bowden A, et al. A weak link in metabolism: the metabolic capacity for glycine biosynthesis does not satisfy the need for collagen synthesis. J Biosci. 2009;34(6):853-72. PMID 20093739 — a hipótese da glicina insuficiente para o colágeno, por cálculo.
  14. de Paz-Lugo P, Lupiáñez JA, Meléndez-Hevia E. High glycine concentration increases collagen synthesis by articular chondrocytes in vitro: acute glycine deficiency could be an important cause of osteoarthritis. Amino Acids. 2018;50(10):1357-1365. PMID 30006659 — glicina e colágeno em condrócitos, só in vitro.
  15. Heresco-Levy U, Ermilov M, Lichtenberg P, et al. High-dose glycine added to olanzapine and risperidone for the treatment of schizophrenia. Biol Psychiatry. 2004;55(2):165-71. PMID 14732596 — dose alta bem tolerada em 6 semanas, em uso médico.
  16. Soh J, Raventhiran S, Lee JH, et al. The effect of glycine administration on the characteristics of physiological systems in human adults: A systematic review. Geroscience. 2024;46(1):219-239. PMID 37851316 — sono melhor em estudos pequenos, com alto risco de viés.
  17. Fan Z, Nelson JM, Wallace TC. Glycine Bioavailability and Sleep-Related Outcomes Following Oral Glycine and Collagen Supplementation-A Scoping Review. J Diet Suppl. 2026;23(5):602-622. PMID 42687500 — 3 ensaios de glicina e sono na literatura até julho de 2026.
  18. Thomas C, Kingshott RN, Allott KM, et al. Collagen peptide supplementation before bedtime reduces sleep fragmentation and improves cognitive function in physically active males with sleep complaints. Eur J Nutr. 2024;63(1):323-335. PMID 37874350 — colágeno rico em glicina sem mudança de temperatura central.
  19. Instrução Normativa nº 28, de 26 de julho de 2018, da ANVISA, texto consolidado no AnvisaLegis — glicina autorizada, máximo de 2.980 mg/dia para maiores de 19 anos, sem alegação autorizada.
  20. Resolução RDC nº 243, de 26 de julho de 2018, da ANVISA, texto consolidado no AnvisaLegis — constituintes e alegações restritos às listas da IN 28/2018.
  21. Dado aberto de medicamentos registrados da ANVISA — a mesma base usada na página O que existe no Brasil.
  22. Lista Proibida da WADA de 2026 (cópia mantida pela Universidade do Esporte de Colônia) — a glicina não aparece.
  23. E-utilities do PubMed (esearch) — a base de todas as contagens de artigo desta página.
  24. API pública do ClinicalTrials.gov, versão 2 — a base de todas as contagens de estudo e de fase 3 desta página.

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