Niacina (ácido nicotínico) e hormônio do crescimento
O estudo de 2008 existe: 7 homens, 2 g de ácido nicotínico em 4 horas, e o GH do segundo sprint triplicou em relação ao primeiro. No Brasil, o máximo diário em suplemento é 35 mg.

Material experimental. Leia antes de usar qualquer coisa daqui.
Nada nesta página é recomendação médica, prescrição ou plano de tratamento. É uma tradução organizada de protocolos que circulam em comunidades de pesquisa e, quando existe, do que ensaios publicados testaram. As duas coisas estão marcadas de forma diferente — e não são equivalentes.
A maior parte dos compostos aqui não tem aprovação da ANVISA nem da FDA para uso humano. Vários são vendidos com rótulo de "uso exclusivo em pesquisa", o que significa que não passaram por controle de pureza, esterilidade ou dosagem para consumo por pessoas. Dose descrita por comunidade não é dose validada: é o que alguém relatou ter feito.
Converse com um profissional de saúde habilitado antes de considerar qualquer um destes compostos. Se você já usa algum e sentir algo fora do previsto, procure atendimento — não espere o próximo exame de rotina.
Resumo
O ácido nicotínico, uma forma da vitamina B3, trava por algumas horas a liberação de gordura do tecido adiposo, e com menos gordura livre no sangue o GH sobe. O estudo citado nos vídeos existe: 7 homens, dois sprints de 30 segundos separados por 4 horas, 2 g de ácido nicotínico no total. Com ele, o pico de GH depois do segundo sprint foi de 23,3 contra 7,7 µg/L no primeiro. Os "4,5 vezes" e "mais de 5 vezes" só aparecem comparando com o segundo sprint sem niacina. A dose do estudo é de remédio, não de vitamina. Nas formas de liberação lenta, metade dos pacientes de um ensaio teve lesão no fígado.
Por que esta página existe
A niacina aparece descrita em vídeos curtos sobre saúde masculina que vi publicados na internet, como uma vitamina barata, "de farmácia", que "multiplica o hormônio do crescimento em 6 vezes". O vídeo especifica que não se trata da niacinamida do multivitamínico, e sim do "ácido nicotínico puro", que "trava a lipólise": sem gordura livre circulando, "o cérebro solta GH para compensar". A fonte é nomeada com precisão: Journal of Applied Physiology, 2008, 7 homens saudáveis, dois sprints de 30 segundos com 4 horas de intervalo. Sem niacina, o segundo sprint soltaria menos GH porque "o corpo já gastou o estoque"; com ela, o pico do segundo ficaria "quase 4,5 vezes maior que o do primeiro" e o GH total, "mais de 5 vezes". O efeito colateral, o rubor ("flush"), seria "inofensivo, só chato", e o pico "de verdade" chegaria de 3 a 5 horas depois de tomar. Dose e horário ficam para um protocolo pago.
Conferi 10 alegações de um vídeo curto. O estudo citado existe e diz quase tudo o que o vídeo diz — mas com uma dose que o vídeo não menciona e com duas comparações trocadas. Nenhum número desta página veio da fonte secundária do site.
Este site trata de assunto vizinho também em O eixo do GH fora do frasco de peptídeo, Treino acima do limiar de lactato ("finisher") e GH, L-glutamina e hormônio do crescimento, GABA oral e o "+400% de GH", Glicina antes de dormir (sono e GH) e Jejum de 24 horas e jejum intermitente de 16 horas (GH, autofagia e testosterona).
O mecanismo existe e é o que o vídeo descreve
O ácido nicotínico se liga a um receptor das células de gordura, o GPR109A, e inibe a quebra de gordura (lipólise); o mesmo receptor, em células de defesa da pele, dispara a liberação de prostaglandinas que causa o rubor (Benyó 2005, em camundongos). A gordura livre no sangue, por sua vez, freia a liberação de GH. É essa a hipótese que o estudo de 2008 testou.
Stokes e colegas (2008) fizeram 7 homens saudáveis pedalarem dois sprints máximos de 30 segundos, separados por 4 horas, em dois dias: um sem nada e outro com ácido nicotínico, 1 g uma hora antes do primeiro sprint e 0,5 g uma hora e três horas depois dele. Antes do segundo sprint, a gordura livre no sangue estava em 0,08 mmol/L com niacina contra 0,75 sem ela. O pico de GH depois do segundo sprint foi de 23,3 µg/L com niacina, contra 7,7 depois do primeiro sprint no mesmo dia e 5,2 depois do segundo sprint no dia sem niacina. O GH total (área sob a curva) seguiu o mesmo padrão: 1.076 contra 316 e 206.
Outros dois estudos apontam na mesma direção. Num de 1995, a niacina adicionada à bebida durante 120 minutos de pedalada impediu a gordura livre de subir e se associou a GH de 3 a 6 vezes maior — e o desempenho no teste final piorou em relação à bebida com carboidrato (Murray 1995). Num piloto publicado em 2018 com 12 crianças com obesidade, 500 mg de niacina a cada hora, 4 vezes, baixaram a gordura livre e subiram o GH; todas tiveram rubor (Galescu 2018).
O que nenhum desses estudos mediu foi músculo, força ou gordura corporal. E há teste direto de que picos agudos de GH não fazem diferença: em 15 semanas de treino, homens que treinaram o braço com e sem um pico hormonal induzido tiveram o mesmo ganho de músculo e de força (West 2010; ver a página treino-limiar-de-lactato-gh).
Quanta evidência existe, de verdade
Os números abaixo foram levantados por mim em 16 de outubro de 2026, no PubMed e no ClinicalTrials.gov. A consulta de cada linha está ao lado do número, para qualquer pessoa repetir e me contradizer.
| Base | Consulta | Resultado |
|---|---|---|
| PubMed | (niacin OR "nicotinic acid") | 19.539 artigos |
| PubMed | (niacin OR "nicotinic acid") AND ("growth hormone") | 56 artigos |
| PubMed | (niacin OR "nicotinic acid") AND ("growth hormone") AND (Randomized Controlled Trial[Publication Type] OR Clinical Trial[Publication Type]) | 14 artigos |
| PubMed | (niacin OR "nicotinic acid" OR acipimox) AND ("growth hormone") AND (exercise OR sprint) | 12 artigos |
| PubMed | (niacin[Title/Abstract] OR "nicotinic acid"[Title/Abstract]) AND (flushing[Title/Abstract] OR flush[Title/Abstract]) | 475 artigos |
| PubMed | (niacin[Title/Abstract] OR "nicotinic acid"[Title/Abstract]) AND (hepatotoxicity[Title/Abstract] OR liver injury[Title/Abstract] OR hepatitis[Title/Abstract]) | 163 artigos |
| PubMed | (niacin OR "nicotinic acid") AND (cardiovascular events) AND (Meta-Analysis[Publication Type]) | 25 artigos |
| ClinicalTrials.gov | intervenção: niacin | 1.448 estudos registrados |
| ClinicalTrials.gov | intervenção: niacin NOT sorafenib | 736 estudos registrados |
| ClinicalTrials.gov | intervenção: (niacin) AND AREA[Phase]PHASE3 | 220 ensaios de fase 3 |
| ClinicalTrials.gov | intervenção: (niacin NOT sorafenib) AND AREA[Phase]PHASE3 | 121 ensaios de fase 3 |
| ClinicalTrials.gov | intervenção: niacin AND AREA[BasicSearch]growth hormone | 9 estudos registrados |
Leitura honesta desses números
- "Niacina e GH" é uma literatura de 56 artigos, e a parte com exercício cabe em 12. Desses, os que testaram o ácido nicotínico com exercício e mediram GH são poucos: o de 2008 com 7 homens, o de 1995 com 10 pessoas e trabalhos com acipimox, um remédio parecido.
- O registro de ensaios mistura outra droga. A busca por niacin no ClinicalTrials.gov devolve dezenas de ensaios de sorafenibe, um remédio contra câncer de fígado e de rim, por algum mapeamento de sinônimos do registro que não conferi. Dos 220 registros de fase 3, só 63 têm niacina ou ácido nicotínico no nome da intervenção; os demais são em boa parte de câncer. Os de niacina de verdade são de colesterol e doença cardiovascular.
- Dos 9 registros com "growth hormone", só um é sobre niacina e GH: um estudo de crianças com obesidade, encerrado antes do fim. Os outros 8 são de câncer.
- Registro não é resultado. Contagem de artigo mede atenção acadêmica, não evidência de desfecho.
Os estudos que sustentam as alegações
Segundo o PubMed, estes são os trabalhos concretos por trás do que se diz sobre niacina e GH, e sobre a segurança do ácido nicotínico em dose alta.
| Estudo | N | Contexto | O que relatou | Ressalva |
|---|---|---|---|---|
| Stokes et al., 2008 J Appl Physiol 104(3):724-8 · PMID 18187617 | 7 homens | Dois sprints de 30 s com 4 h de intervalo, com e sem ácido nicotínico (1 g antes, 0,5 g 1 h e 3 h depois do 1º sprint) | Pico de GH após o 2º sprint: 23,3 µg/L com niacina, contra 7,7 após o 1º sprint e 5,2 após o 2º sprint sem niacina; GH total 1.076 contra 316 e 206 | Mede GH agudo, não músculo; 2 g de ácido nicotínico em 4 h |
| Murray et al., 1995 Med Sci Sports Exerc 27(7):1057-62 · PMID 7564973 | 10 | 120 min de pedalada com bebidas com e sem ácido nicotínico, e teste de desempenho no fim | GH de 3 a 6 vezes maior com niacina; desempenho pior que com bebida de carboidrato | "Bloquear a subida da gordura livre reduz a capacidade de exercício intenso", concluem os autores |
| Galescu et al., 2018 Pediatr Obes 13(1):30-37 · PMID 27654882 | 12 crianças | Obesidade; 250 a 500 mg de niacina a cada 1–2 h | Com 500 mg a cada hora, 4 vezes, gordura livre baixa e GH maior (p = 0,04); rubor em 100%, formigamento em 60%, queixa intestinal em 20–40% | Crianças; piloto |
| West et al., 2010 J Appl Physiol 108(1):60-7 · PMID 19910330 | 12 homens | 15 semanas de treino de braço com e sem pico hormonal induzido | Hipertrofia e força iguais nas duas condições | Não usa niacina; testa se o pico de GH importa |
| Benyó et al., 2005 J Clin Invest 115(12):3634-40 · PMID 16322797 | camundongos | Receptor GPR109A | O receptor que inibe a lipólise também medeia o rubor, por prostaglandinas | Animal; os autores chamam o rubor de "inofensivo", mas dizem que ele afeta muito a adesão |
| McKenney et al., 1994 JAMA 271(9):672-7 · PMID 8309029 | 46 | Colesterol alto; niacina de liberação imediata ou lenta, de 500 a 3.000 mg/dia, randomizado, duplo-cego | Lesão no fígado em 12 de 23 (52%) com liberação lenta e em nenhum com liberação imediata; 78% e 39% abandonaram antes de 3.000 mg/dia | "A forma de liberação lenta é hepatotóxica e deveria ter o uso restrito", concluem os autores |
| Rader et al., 1992 Am J Med 92(1):77-81 · PMID 1731514 | série de casos | Revisão de relatos | Lesão hepática com as duas formas; 10 casos após troca abrupta da imediata pela lenta, alguns em menos de 7 dias; o rubor "afeta praticamente todos os usuários" | Série de casos |
| AIM-HIGH, 2011 N Engl J Med 365(24):2255-67 · PMID 22085343 | 3.414 | Doença cardiovascular com estatina; niacina de liberação prolongada 1.500–2.000 mg/dia ou placebo | Interrompido por falta de eficácia: eventos em 16,4% contra 16,2% (HR 1,02) | Financiado pelo instituto cardiovascular dos EUA e por uma farmacêutica |
| HPS2-THRIVE, 2014 N Engl J Med 371(3):203-12 · PMID 25014686 | 25.673 | Doença vascular; 2 g de niacina de liberação prolongada com laropipranto ou placebo, 3,9 anos | Sem redução de eventos vasculares (13,2% contra 13,7%); mais diabetes descompensado (+3,7 pontos percentuais), novos diagnósticos de diabetes (+1,3), infecções (+1,4) e sangramentos (+0,7) | Financiado por uma farmacêutica e outros |
Doses usadas em estudos humanos publicados
Isto não é recomendação de dose: é o registro do que foi administrado em estudos publicados, com a finalidade de cada um. Fora do contexto do estudo, esses números não se transferem.
| Estudo | Dose | Duração | Finalidade do estudo |
|---|---|---|---|
| Stokes et al., 2008 | Ácido nicotínico 1 g + 0,5 g + 0,5 g (2 g no total) | 4 horas | GH no sprint repetido |
| Murray et al., 1995 | 280 mg de ácido nicotínico por litro de bebida, tomada a cada 15 min | 120 min | Resposta fisiológica e desempenho |
| Galescu et al., 2018 | 250 ou 500 mg a cada 1–2 h, 3 ou 4 doses | Um dia | Gordura livre e GH em crianças |
| McKenney et al., 1994 | 500 → 1.000 → 1.500 → 2.000 → 3.000 mg/dia | 6 semanas em cada dose | Colesterol e toxicidade |
| AIM-HIGH, 2011 | 1.500–2.000 mg/dia, liberação prolongada | Média de 3 anos | Eventos cardiovasculares |
| HPS2-THRIVE, 2014 | 2 g/dia, liberação prolongada, com laropipranto | Mediana de 3,9 anos | Eventos vasculares |
Para comparação, sem que seja dose de estudo: o máximo de niacina permitido por dia em suplemento no Brasil para adultos é 35 mg, e o limite superior de ingestão de ácido nicotínico fixado na Europa é 10 mg por dia.
Das 10 alegações conferidas, 2 se confirmam como foram ditas
Cada linha é uma alegação como ela circula, sem o nome de quem a fez. O veredito usa seis rótulos: confirmado, parcialmente, não sustentado, sem estudo em humanos, estudo em animal ou in vitro e número não encontrado na fonte citada.
| O que se diz | O que os estudos mostram | Veredito |
|---|---|---|
| A fonte: Journal of Applied Physiology, 2008, 7 homens saudáveis, dois sprints de 30 s com 4 h de intervalo | É exatamente o estudo de Stokes e colegas (2008) | Confirmado |
| Ácido nicotínico trava a lipólise; sem gordura livre circulando, o GH sobe | Gordura livre de 0,08 contra 0,75 mmol/L antes do 2º sprint, com GH maior (Stokes 2008); o mesmo em pedalada longa (Murray 1995) e em crianças (Galescu 2018) | Confirmado (como efeito agudo) |
| "Multiplica o hormônio do crescimento em 6 vezes" | O estudo citado não traz 6 vezes; um estudo de 1995 relata GH "de 3 a 6 vezes" maior durante pedalada longa | Número não encontrado na fonte citada |
| Sem niacina, o 2º sprint solta menos GH porque "o corpo já gastou o estoque" | A queda da resposta no sprint repetido está no estudo; a explicação proposta pelos autores é a gordura livre alta, não estoque gasto | Parcialmente |
| Com niacina, o pico do 2º sprint fica "quase 4,5 vezes maior que o do primeiro" | Publicado: 23,3 contra 7,7 µg/L no mesmo dia. A razão de cerca de 4,5 aparece só ao comparar com o 2º sprint do dia sem niacina (23,3 contra 5,2), conta minha | Número não encontrado na fonte citada (comparação trocada) |
| O GH total do 2º sprint foi "mais de 5 vezes" o do 1º | Publicado: 1.076 contra 316 no mesmo dia; "mais de 5 vezes" só contra o 2º sprint sem niacina (1.076 contra 206), conta minha | Número não encontrado na fonte citada (comparação trocada) |
| Uma vitamina barata, "de farmácia", faz isso | O estudo deu 2 g de ácido nicotínico em 4 h; o máximo em suplemento no Brasil é 35 mg/dia; nos EUA, o ácido nicotínico em comprimido aprovado é de prescrição | Não sustentado |
| A niacinamida do multivitamínico não trava a lipólise; o ácido nicotínico trava | A diferença de perfil é reconhecida: a Europa fixou limites diferentes, 10 mg/dia para o ácido nicotínico e 900 mg/dia para a nicotinamida; não conferi estudo do efeito da nicotinamida sobre a lipólise | Parcialmente |
| O flush é "inofensivo, só chato" | O rubor em si é descrito como inofensivo (Benyó 2005), mas atingiu 100% das crianças (Galescu 2018) e levou ao abandono em ensaio (McKenney 1994); a dose que causa o flush é a mesma faixa associada a lesão hepática nas formas de liberação lenta | Parcialmente |
| "O pico de verdade só chega de 3 a 5 horas depois" de tomar | No estudo, a niacina foi tomada em três doses e o GH maior apareceu depois do 2º sprint, feito 4 h após o 1º; não há medida de GH da niacina sozinha, sem o sprint | Não sustentado |
Placar: 2 confirmadas, 3 parcialmente, 2 não sustentadas e 3 com número não encontrado na fonte citada.
A dose do estudo é de remédio
O vídeo esconde a dose atrás de um "protocolo". O estudo não esconde: 1 g de ácido nicotínico uma hora antes do primeiro sprint e mais 0,5 g duas vezes, 2 g em 4 horas. É a mesma faixa usada para tratar colesterol: 2 g por dia no HPS2-THRIVE, de 1,5 a 2 g no AIM-HIGH.
Nessa faixa, a niacina deixou de ser vitamina. Nos dois maiores ensaios, com 3.414 e 25.673 pessoas, ela não reduziu infarto nem derrame, e no maior deles aumentou diabetes, infecções e sangramentos graves (HPS2-THRIVE 2014). A forma de liberação lenta, criada justamente para diminuir o rubor, lesou o fígado de 52% dos pacientes num ensaio de 1994 (McKenney 1994), e os casos de toxicidade aparecem com frequência após troca abrupta de uma forma pela outra, alguns em menos de uma semana (Rader 1992).
Comparando com as regras: o suplemento brasileiro pode recomendar no máximo 35 mg de niacina por dia para adultos. A dose do estudo passa de 50 vezes esse limite. O limite superior europeu para o ácido nicotínico é 10 mg por dia, justamente por causa do rubor.
Segurança, efeitos adversos e quem não deve usar sem médico
- Rubor. Atinge praticamente todos os usuários (Rader 1992); em crianças, 100%, com formigamento em 60% (Galescu 2018). É mediado por prostaglandinas liberadas na pele (Benyó 2005).
- Fígado. Lesão em 52% com liberação lenta e nenhuma com liberação imediata, em doses de até 3.000 mg/dia (McKenney 1994). Os autores recomendaram restringir a forma lenta.
- Diabetes, infecção e sangramento. Aumentaram com 2 g/dia por 3,9 anos (HPS2-THRIVE 2014).
- Desempenho. Bloquear a gordura livre durante exercício longo piorou o desempenho num teste final (Murray 1995).
- Interações: os ensaios grandes foram feitos com estatina. NÃO VERIFIQUEI a bula nem base de interações.
- Quem não deve usar sem médico: quem tem doença do fígado ou diabetes, ou usa estatina — inferência minha a partir dos ensaios acima, não lista de contraindicação de bula.
Status regulatório
- Brasil, suplemento alimentar: o ácido nicotínico e a nicotinamida são fontes autorizadas de niacina (Anexo I da IN 28/2018). O máximo é 35 mg de niacina equivalente por dia para maiores de 19 anos; o mínimo, 2,4 mg. As alegações autorizadas são sobre pele, mucosas e metabolismo energético e de nutrientes ("A niacina contribui para a manutenção da pele", por exemplo); nada sobre GH. Versão consolidada conferida: com alterações até a IN 470, de 16 de setembro de 2026.
- Brasil, medicamento: nenhum registro ativo de ácido nicotínico no dado aberto da ANVISA. Os registros que existiram, de antilipêmicos (inclusive de liberação prolongada e a associação com laropipranto) e de associações vasodilatadoras, estão todos inativos (tabela abaixo).
- Estados Unidos: a openFDA lista 8 aplicações de niacina, todas de comprimidos de prescrição, de liberação imediata ou prolongada. NÃO VERIFIQUEI a situação da niacina vendida como suplemento.
- União Europeia: limite superior de ingestão de 10 mg por dia de ácido nicotínico e de 900 mg por dia de nicotinamida para adultos (Comitê Científico da Alimentação, 2002, na tabela de limites da EFSA, versão de agosto de 2025).
- WADA: a niacina não aparece na Lista Proibida de 2026.
No Brasil, busquei no dado aberto de medicamentos registrados da ANVISA, no princípio ativo e no nome do produto, sem acento e sem diferença de caixa.
| Princípio ativo | Padrão buscado | Registros ativos | Classe terapêutica declarada | Produtos |
|---|---|---|---|---|
| ácido nicotínico, niacina | acido nicotinico|niacina\b | 0 | — | 45 registros inativos: antilipêmicos, associação com laropipranto, vasodilatadores com papaverina e polivitamínicos |
A nicotinamida aparece em 72 registros ativos, quase todos de polivitamínicos, complexos B e associações (a busca também casa um radiofármaco de nome parecido); não é a forma do estudo.
O que este levantamento não fez
- Li resumos, não os artigos inteiros. Os números do estudo de 2008 são os do resumo; as razões de 4,5 e 5 que discuto são conta minha sobre esses números.
- Não achei estudo de niacina com treino que medisse músculo, força ou gordura.
- Não verifiquei a bula do ácido nicotínico, a situação de suplemento nos EUA, nem base de interações.
- Não conferi por que o ClinicalTrials.gov devolve ensaios de sorafenibe na busca por niacina.
- Não avaliei o acipimox, parente do ácido nicotínico usado em parte da literatura de GH.
Referências
- Stokes KA, Tyler C, Gilbert KL. The growth hormone response to repeated bouts of sprint exercise with and without suppression of lipolysis in men. J Appl Physiol (1985). 2008;104(3):724-8. PMID 18187617 — o estudo citado: 7 homens, 2 g de ácido nicotínico, pico de 23,3 contra 7,7 µg/L.
- Murray R, Bartoli WP, Eddy DE, Horn MK. Physiological and performance responses to nicotinic-acid ingestion during exercise. Med Sci Sports Exerc. 1995;27(7):1057-62. PMID 7564973 — GH de 3 a 6 vezes maior e desempenho pior.
- Galescu OA, Crocker MK, Altschul AM, et al. A pilot study of the effects of niacin administration on free fatty acid and growth hormone concentrations in children with obesity. Pediatr Obes. 2018;13(1):30-37. PMID 27654882 — GH maior e rubor em 100% das crianças.
- West DW, Burd NA, Tang JE, et al. Elevations in ostensibly anabolic hormones with resistance exercise enhance neither training-induced muscle hypertrophy nor strength of the elbow flexors. J Appl Physiol (1985). 2010;108(1):60-7. PMID 19910330 — pico hormonal sem efeito em hipertrofia e força.
- Benyó Z, Gille A, Kero J, et al. GPR109A (PUMA-G/HM74A) mediates nicotinic acid-induced flushing. J Clin Invest. 2005;115(12):3634-40. PMID 16322797 — o receptor da lipólise e do rubor.
- McKenney JM, Proctor JD, Harris S, Chinchili VM. A comparison of the efficacy and toxic effects of sustained- vs immediate-release niacin in hypercholesterolemic patients. JAMA. 1994;271(9):672-7. PMID 8309029 — lesão hepática em 52% com liberação lenta.
- Rader JI, Calvert RJ, Hathcock JN. Hepatic toxicity of unmodified and time-release preparations of niacin. Am J Med. 1992;92(1):77-81. PMID 1731514 — casos de lesão hepática, inclusive após troca de forma.
- AIM-HIGH Investigators, Boden WE, Probstfield JL, et al. Niacin in patients with low HDL cholesterol levels receiving intensive statin therapy. N Engl J Med. 2011;365(24):2255-67. PMID 22085343 — interrompido por falta de eficácia.
- HPS2-THRIVE Collaborative Group, Landray MJ, Haynes R, et al. Effects of extended-release niacin with laropiprant in high-risk patients. N Engl J Med. 2014;371(3):203-12. PMID 25014686 — sem benefício vascular e com mais eventos adversos graves.
- Instrução Normativa nº 28, de 26 de julho de 2018, da ANVISA, texto consolidado no AnvisaLegis — ácido nicotínico como fonte de niacina; máximo de 35 mg/dia (≥19 anos).
- EFSA. Overview on Tolerable Upper Intake Levels as derived by the Scientific Committee on Food (SCF) and the EFSA Panel on Dietetic Products, Nutrition and Allergies (NDA), versão 11, agosto de 2025 — ácido nicotínico 10 mg/dia e nicotinamida 900 mg/dia para adultos.
- API da openFDA, endpoint drugsfda — 8 aplicações de niacina, todas de prescrição.
- Dado aberto de medicamentos registrados da ANVISA — a mesma base usada na página O que existe no Brasil.
- Registros consultados no ClinicalTrials.gov: NCT01237041 (crianças com obesidade, ácidos graxos e GH), NCT00120289 (AIM-HIGH) e NCT00461630 (HPS2-THRIVE).
- Lista Proibida da WADA de 2026 (cópia mantida pela Universidade do Esporte de Colônia) — a niacina não aparece.
- E-utilities do PubMed (esearch) — a base de todas as contagens de artigo desta página.
- API pública do ClinicalTrials.gov, versão 2 — a base de todas as contagens de estudo e de fase 3 desta página.